quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Jantar da Natal...

Dando continuidade à tradição realizou-se ontem mais um Jantar de Natal com os Sem-abrigo da cidade do Porto, nas instalações da Igreja de Nossa Senhora da Conceição (Marquês).
Ainda faltava muito para a hora marcada e já alguns se alinhavam junto ao portão de entrada para a cripta na ânsia de garantir um lugar à mesa, adivinhando a avalanche de gente que se apresentou em resposta à divulgação anteriormente feita na rua e junto dos utentes habituais da Porta Solidária.
Dizer que a resposta também dada pelo voluntariado foi linda acho que é pouco pois excedeu as expectativas: ao pessoal da Paróquia e voluntários do costume juntaram-se também outros voluntários dos Hospitais Privados de Portugal com elementos do Porto e dois que vieram expressamente de Lisboa, os escuteiros de Aldoar, duas irmãs de Coimbra e outro de Vila Nova de Famalicão que responderam ao pedido de voluntários feito no Facebook...
Gente grande e gente pequena, novos e menos novos, pequeninos mesmo alguns (dos três anos para cima...), cada qual à sua maneira e segundo as suas possibilidades ajudou a dar corpo a mais uma manifestação de vitalidade e presença cristã junto dos menos protegidos.
Sob a orientação do Sr. Pe. Rubens foi preparada a sala, colocadas as mesas, as cadeiras, os talheres, arrumados os pratos, tudo na devida ordem para acolher os esperados 300 comensais.
Um pouco antes da hora prevista já a fila dava a volta à igreja. Trezentos?!... comentava-se que seriam mais que isso àquela hora. E os atrasados? De facto, foi com certa dificuldade que se iniciou o escoamento daquela gente que se comprimia junto à entrada em direcção às mesas. As mesas estavam completas e ainda havia muitos à entrada. Recorreu-se à colocação de mesas extra para acomodar a todos, que foram mais uns oitenta!...
A sala não comportava mais ninguém, nem que se quisesse... Fechada a porta iniciou-se o serviço a que os voluntários para esse efeito destacados executaram na perfeição. Primeiro o arroz, o frango, o pão para todos, e as bebidas - sumos e água. Quem quis repetiu até acabar e se ver o fundo aos tachos que seguiram dali para a cozinha limpinhos até ao fundo!
Seguiram-se as sobremesas que este ano foram muito abundantes: maçãs, tangerinas, bananas, e, a estas, o Bolo-Rei e Vinho do Porto.
No palco, o grupo de cavaquinhos da Senhora da Conceição pôs muitos a dançar ao som das trovas que iam tocando.
Tudo servido, os voluntários subiram ao palco, que ficou totalmente preenchido, e, em coro afinado, entoaram as "Janeiras" com letra adaptada ao evento e ao local:
"Oh! Acordai!..., Oh! Acordai!..."
A hierarquia esteve ali presente na pessoa do Sr. Bispo Auxiliar, a Caritas na pessoa do seu Presidente diocesano, e a Igreja em todos os que responderam à chamada, de longe ou de perto, servidos ou servidores.
Dizer que correu bem é pouco porque o resultado final, sendo o corolário da conjugação do esforço de todos numa corrente de doação e entrega gratuitas, é o espelho do que deveria ser a sociedade e o mundo, construindo aquela sociedade em que o Amor está em todos e a todos se dá gratuitamente.
C.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

JANTAR DE NATAL

Franjas Sociais, abrangendo também voluntários das Paróquias de Carregosa e de Aldoar (escuteiros) e dos H.P.P. participam em mais uma organização do Jantar de Natal dos Sem-abrigo que a Paróquia de Nossa Senhora da Conceição (ao Marquês, no Porto) tem por tradição oferecer nesta quadra.
Vai ter lugar nas instalações daquela Paróquia no próximo dia 29, às 20,00 horas.
Quem pretender poderá ajudar com a oferta de Vinho do Porto para o final pois que já há tudo o necessário.
Aceitam-se luvas e meias (preferentemente de homem) para o brinde a entregar no final.
As ofertas deverão ser entregues na Paróquia até às 10,00 horas da manhã de Quarta-Feira.
C.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Dezembro de 2010

5 Anos...


Com coroa de ouro se encerrou este 5º. ano da actividade de "Franjas Sociais" na rua. E o que fizemos para isso? NADA!... Só persistimos...
Com fartura desusada, de gente e de coisas, preparámos mais esta saída.
Desde o mês passado que contávamos com o pessoal da Paróquia de Carregosa e com o do Clã 50 do Agrupamento de escuteiros. Mais ainda outros voluntários do grupo original. O suficiente para encher as duas carrinhas de 9 lugares.

Juntámos pão, sandes, bolos, fruta, salgados variados, queques e pastéis e leite com chocolate. Juntámos a isto as sobras do jantar dos escuteiros por eles cuidadosamente guardadas, e bastantes termos com café com leite quente.

Com a agilidade própria dos jovens e, especialmente, dos que já desenvolveram competência organizativa, num abrir e fechar de olhos dispuseram e distribuiram tudo pelos 150 sacos individuais.

Perante aquele espectáculo houve alguém que, ao passar, quis saber do que se tratava. Quando soube que era para distribuir aos Sem-abrigo desabafou:

- Segundo disseram na Católica há dias, e deu na TV, já "há grupos a mais na rua; até se chegam a digladiar a disputar a distribuição; outros até deitam fora o que se acabou de se lhes entregar."

- Pois olhe que em tantos anos de rua nunca vimos tal; o que encontrámos mais que uma vez foi alguns a dizer-nos:

- Ai! Ainda bem que vieram... Se não fosse vocês aparecerem hoje não comíamos nada! E mesmo quando nos parece haver novos grupos, ou colaboramos com eles se a abundância não for suficiente, ou então deixamo-los nesse lugar e avançamos para outro de modo a que não haja atropelo na distribuição.

Quem foi que disse que a Caridade é cega?

Pelos vistos, quando às vezes pretendemos ver é que a Caridade deixa de o ser...

Sem comentários para o muito mau serviço prestado à própria causa da Igreja por quem, sem conhecimento preciso das coisas, e com muito pouco discernimento, dá publicidade negativa a um eventual facto isolado que, deste modo, se transforma em corrente e na verdade oficial!...

Pois bem: nessa mesma noite se confirmou uma vez mais o conteúdo da resposta quando, ao ver alojados dois nas arcadas do H. de Stº. António e nos dirigimos a eles nos disseram:

- Ah!... Estávamos a ver que esta noite não comíamos nada! Vimos passar aqui as carrinhas mas não pararam... Mas, graças a vocês podemos comer alguma coisa! E sabem que mais? Quando já se não espera e aparece é que sabe ainda melhor!...

Reunidos no átrio do Centro pedimos a bênção para aquela noite. Mais uma a arrostar com o pessimismo de tantos que se dizem cristãos mas que sem se dar conta vão mergulhando a sua sensibilidade em formalismos estéreis e práticas desertas de sentimento. Ao Pai Nosso seguiu-se a leitura de uma passagem do Novo Testamento, desta vez aberto pelo José Augusto, de Carregosa:

Actos dos Apóstolos, 3, 1-11.

"... Não tenho ouro nem prata, mas o que tenho , isto te dou: Em nome de Jesus Cristo Nazareno, levanta-te e anda!".

É evidente que, além do material, o mais importante é o imaterial que no caso da leitura é a cura do paralítico. No nosso caso até levamos algo para a manutenção do corpo, mas não deveremos dar ainda mais atenção ao espírito, às coisas da alma?

Já no mês passado tivemos idêntica leitura, a da cura do cego de nascença, em que os discípulos inquirem de Jesus de quem é a culpa da sua cegueira.

Ora Jesus dá-nos a entender claramente que o importante não é o saber de quem é a culpa disto ou daquilo mas o partido que nós pudermos retirar desse facto, "para se manifestarem as obras de Deus".

É para a manifestação das obras de Deus que aqui estamos e assim pretendemos continuar sem esperarmos dividendos de qualquer natureza.

Dividimo-nos em dois grupos, seguindo um pela cidade (Boavista, Júlio Dinis, Câmara, Viaduto , Batalha, Urgência do H. de Stº. António), e rumando o outro directamente ao Aleixo, Pinheiro Torres, Pasteleira... Findo este percurso juntámo-nos na Urgência mas passando ainda pelas arcadas do Hospital, onde se passou a cena já descrita, e pelo Jardim do Carregal onde detectámos outra situação a requerer tratamento urgente e que já mereceu algumas diligências da nossa parte em contacto com os Médicos do Mundo.
A noite avançava e urgia dá-la por terminada para permitir o regresso pouco tardio dos grupos. Convidámos os que ainda permaneciam no local a rezar connosco um Pai-Nosso de agradecimento por aquela noite e de prece por todos as suas necessidades: e, de mãos dadas numa roda larga, ressoou no ar da Rua do Rosário, devota e pausadamente, o som daquela oração que ainda hoje une os corações de todos os cristãos.
C.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Ainda Novembro de 2010...


Uma noite diferente
"No passado dia 10 de Novembro, à noite, alguns dos elementos do Clã 50 Egas Moniz e alguns membros das Equipas de Animação do Agrupamento 174 de Aldoar tiveram uma experiência diferente.
Juntaram-se a alguns membros da Paróquia de Aldoar do grupo "Franjas Sociais" e da Paróquia de Carregosa, de Oliveira de Azeméis, para irem pelas ruas do Porto distribuir comida e bebidas quentes aos sem-abrigo.
Juntámo-nos por volta das 20,00 horas no Centro Paroquial, onde se ultimaram os preparativos, como a distribuição da comida por sacos individuais e a preparação das bebidas quentes.
Depois de uma breve apresentação, a partilha de algumas dicas e de uma oração, por volta das 22,00 horas partimos ruma à Boavista, mais propriamente a zona do Bingo, e de seguida para Júlio Dinis. Fizemos mais algumas paragens nas Urgências do H. de Stº. António, na Câmara Municipal, na Batalha, no Bairro do Aleixo, terminando no Bairro Pinheiro Torres.
Foi uma experiência bastante importante para nós e a qual repetiremos uma vez por mês, juntamente com o Grupo.
Esta noite mais do que distribuir comida e bebida quente, levou.nos a contactar bem de perto com outras realidades, a dar uma palavra e um sorriso que no dia-a-dia aquelas pessoas quase não recebem.
O Escutismo é mais do que acampar e estar entre escuteiros, é também saber lidar com outras realidades, trabalharmos em conjunto com outras pessoas e crescermos como indivíduos da sociedade.."
Extraído da edição nº. 5 de "O PERIÓDICO", jornal do Clã 50 do Agrupamento 174, de Aldoar.


domingo, 14 de novembro de 2010

Quando Deus quer...

Novembro de 2010

Habituados a pouco e a poucos foi na hora menos esperada que começaram a surgir as surpresas. Primeiro foi um grupo de escuteiros do Agrupamento de Aldoar que manifestou vontade de alinhar na rua e, poucos dias depois, o Sr. Pe. Artur Monteiro, da Paróquia de Carregosa, que se dispôs a iniciar uma nova actividade junto dos Sem-abrigo. Viria lá de baixo, de fora do Porto, com um numeroso grupo de jovens da sua Paróquia acordar com esta sua iniciativa os que por cá ainda permanecem acomodados.
Ao longo dos meses fomos teimando na continuidade sem pensar nos resultados. Pensávamos apenas na nossa obrigação de descer da montada e de nos aproximarmos dos que carecem da nossa ajuda.
Deus é GRANDE! E tão generoso que apontou à rua não um mas dois maravilhosos e numerosos grupos de jovens dispostos a não virar a cara à miséria mas a enfrentá-la com Esperança, esperando que alguns venham ainda a beneficiar em resultado da sua atitude.
E também mandou quem, pela formação e pelo carisma, pode ajudar a levar à rua a Palavra de Deus na pureza da sua interpretação, e a Sua Bênção.
Depois da experiência só poderemos dizer: obrigado, Senhor! Nós pelo dom da continuidade certificada no número e qualidade dos enviados à Missão, eles pelo dom da participação.
Desta vez quase nem nos apercebemos da tarefa de completar os sacos. Eram 150 os previstos mas a amiga Maria de Lurdes apareceu com uma quantidade inusitada de mais uns tantos que até nos fez perder a conta! Tudo decorreu com rapidez e eficiência, fruto da organização e saber dos escuteiros - que bela escola!... - e dos paroquianos de Carregosa.
Porque era a primeira vez de 18 pessoas - 11 de Aldoar e 7 de Oliveira de Azeméis (espero não errar) - a maior parte do tempo de preparação foi gasto com informações e recomendações.
Eram cerca das 21,30 horas quando nos fizémos à rua pelo trajecto habitual. Logo no início encontrámos os Médicos do Mundo que davam apoio a um dos nossos amigos de longa data: o João (da bicicleta), que mudou de poiso.
Continuámos pela Avenida da Boavista, Júlio Dinis e Câmara. Por um estranho fenómeno que acontece às vezes (lá terá a sua explicação), havia menos gente. Na Batalha era próximo do habitual. Igualmente junto à Urgência do H. de Santo António.
A abundância de farnéis, tal como esperávamos, fez-nos avançar para o Aleixo. Também aqui a frequência era menor.
Seguimos até à Pasteleira onde o corropio dos frequentadores era notável e tristemente curioso o de automóveis que mal paravam logo arrancavam com inusitada pressa!...
Continuavam a sobrar sacos. Aconselharam-nos a ida ao Ferreira Torres. Lá fomos ao encontro de mais uns tantos...
Fome!... Fome!... Fome!... Droga e mais droga!... Uma arrasta a outra numa espiral de miséria e desgraça. Desgraça para os próprios e para os que os cercam...
Servia uma mulher dos seus quarenta anos e, ao mesmo tempo íamos conversando.
-Olhe, o melhor que podia fazer era pensar deixar esta vida, tentar mudar... Já pensou nisso?
- Às vezes penso e já temos falado nisso eu e o meu marido. Aquele homem que está ali à frente...
Olhei e vi-o. De aspecto maduro, na fila mais adiante, estendia a mão para recolher o saco. Não conseguiria já esconder as mazelas daquela vida de um só sentido e pensar: droga!...
- Filhos? - perguntei.
- Três, - respondeu.
- Onde estão?
- Com os meus sogros.
É assim: aqui um mal nunca vem só. Traz consigo um rosário de misérias e trabalhos que cava a desgraça de uns e enferniza a vida de outros. E os mais próximos são as maiores vítimas. Em primeiro lugar os filhos, depois os pais, os avós, outros parentes quando se não alheiam!
E ninguém está vacinado contra este mal. Apanha às vezes até os mais avisados. Foi talvez com certa surpresa que os escuteiros do grupo foram descobrir numa só paragem três antigos escuteiros que têm a rua por casa! Mas foi uma alegria para os antigos que não se cansavam de manifestar essa sua qualidade indicando o Agrupamento a que pertenciam e despedindo-se de todos com o conhecido aperto de mão com a mão esquerda.
Mas esta noite pareceu mesmo preparada para os mais novos pois não terminou sem o insólito: um frequentador do Pinheiro Torres que se deslocara de Aveiro para vir buscar veneno ao Porto, com a precipitação, fechou a carrinha deixando as chaves na ignição. Tenta dum modo, tenta do outro e nada! As equipas dos escuteiros e a de Carregosa uniram os seus saberes e talentos na tentativa de descobrirem forma de abrir a porta. E tanto porfiaram que até conseguiram, para alívio do condutor precipitado.
E foi ali, numa roda, que démos Graças por esta noite e pedimos por todos quantos tinham vindo ao nosso encontro. Grupos de rua oram na rua.
Encontrámos pessoas marcadas, sofridas, vidas em farrapos, idas sem regresso, mas na pessoa de cada uma está Jesus sofrido, espezinhado, abatido, crucificado.
- Quem pecou, foi ele ou foram os seus pais?
- Não foi ele nem os seus pais que pecaram, mas isto aconteceu para que a obra de Deus se manifestasse na vida dele” (João 9.1-3).
A leitura deste dia aconselha-nos a não atribuir culpas a nenhum daqueles que encontrámos no nosso caminho pela desdita que os atingiu, mas a dar Glória a Deus e a agradecer-Lhe por nos ter permitido participar na Sua obra.
Quantos de entre eles não irão à nossa frente para o Reino dos Céus?

C.


franjassociais@hotmail.com

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Outubro 2010 - Nova Saída

Parecia que as dificuldades nunca mais nos deixavam. Desta vez voltámos a sair apenas dois pois a amiga Maria de Lurdes continua impedida agora por motivo diferente.
Falhou, e falhou toda a fartura que costumava vir de Leça. Assim, tivemos de fazer um pouco de ginástica para reforçar a ementa, e conseguimos mais de oitenta porções. É certo que não eram fartas como habitualmente mas… que fazer? A nossa intenção é IR e lá vamos com o que temos.
Estávamos a sair do Centro quando aparecem alguns amigos escuteiros que iam ter a sua reunião de chefias. Ao saber que íamos ao encontro dos Sem-abrigo demonstraram interesse em alinhar no mês que vem. Ficou a disposição deles e o nosso convite.
E arrancámos.
Boavista, Júlio Dinis… Os sacos desapareciam…
Seguiu-se a Câmara. Fomos ali os primeiros e aproveitámos para iniciar a distribuição a um grupo que aguardava os Samaritanos. Demos a volta pelo viaduto, seguimos à Batalha. O grupo habitual já lá aguardava. Voltámos a encontrar a Emília, com quem conversámos um pouco. Pareceu-nos melhor, e dispôs-se a ir até Guimarães um dia.
Minguava a merenda mas ainda devia dar para seguir até ao Santo António. Lá fomos, e deixámos tudo o resto. Reservámos apenas um farnel para o Sr. António que, vítima da sua teimosia e do vício, tem a rua como abrigo porque rejeitou o quarto que lhe tinham conseguido. Rejeitar não é bem o termo, deixou de o utilizar por preferir a tertúlia do Stº. António…
Voltámos a Aldoar. Mal tínhamos parado o carro quando demos de caras com o grupinho de escuteiros, agora acompanhado com o respectivo chefe. Este interessou-se também pela experiência e dispôs-se a acompanhar-nos em Novembro.
Fartura!!!...
Esperemos que venha para ficar e dar origem a um interessante programa de ajuda e partilha no âmbito da Paróquia.
Dois dias após, recebo uma mensagem de um Sr. Pe. da zona de Oliveira de Azeméis dispondo-se a vir mensalmente à rua com um grupo da sua paróquia… Já lhe respondi e ficou assente que irão connosco no próximo dia 10 de Novembro!...
Mais fartura!
Durante meses e meses quase que a fio minguámos de pessoal e de bens – sobras uns, aquisições outros.
Agora é o que se vê…
Mas não parou por aqui. Creio que no mesmo dia telefonam-me do Centro dizendo que têm lá uma encomenda para mim. Estranho e pergunto de quem e para quê. Respondem-me que foi um Senhor que deixou para Franjas Sociais.
Estranhei duplamente porque nem a designação é muito conhecida nem nós angariamos donativos. Fui lá. A carta vinha apenas assinada com um simples L. B. S.
Entendi…
Esteve connosco, saiu connosco, participou na feitura deste blog e sumiu… Para onde, sempre me perguntei sem obter resposta. Mau-grado as diversas tentativas de o reencontrar não consegui descobrir-lhe o rasto, e agora, sem que o esperasse, aparece na forma de um donativo chorudo, afloramento singelo de uma alma GRANDE!
Continuamos a ignorar o seu paradeiro mas este grupo e este correio não são a mesma coisa sem ele.

L.B.S., continuamos à sua espera!
Por este meio lhe deixamos um grande abraço e pedimos que Deus lhe dê o melhor de tudo quanto necessitar.

C.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

De volta...

Setembro.2010
Já não são as noites cálidas do nosso Verão aquelas que encontramos quando saímos ao encontro daqueles que dia-a-dia, semana-a-semana, mês-a-mês nos aguardam nas ruas do Porto.
Este blog tem estado em silêncio mas a nossa actividade não parou. Todos os meses temos saído, com exclusão de Maio. Ainda que não seja propriamente aliciante o tema nem agradável a miséria, congratulamo-nos com os leitores que nos vêm visitando com regularidade nos países onde residem, nomeadamente os mais assíduos, que são os que moram na Califórnia (USA), Rússia, Brasil (muitos), e em Portugal.
Os relatos também não têm em vista fazer propaganda (de quê?!...) mas apenas permitir tomar contacto com esta nossa realidade a quem noutras latitudes se dedica igualmente à tarefa de ir ao encontro "do outro" para que da experiência de uns e de outros resulte um melhor conhecimento de como deveremos actuar.
Ontem lá fomos uma vez mais, lutando com falta de voluntários mas esperando e confiando. E, se uns faltam, outros vêm.
Não são bons os tempos que atravessamos e a rua vai-no-lo lembrando: São muitas as caras novas que espelham amarguras e desaires da vida e que dia-a-dia aumentam o número dos que nos aguardam.
Era farta a mesa que levávamos ontem mas tudo acabou na Rua do Rosário. Há já três meses que não conseguimos descer ao Aleixo.
Não têm surgido casos que mereçam especial atenção a não ser as mães novitas que nos aparecem acompanhadas dos seus filhitos. Excepção foram no mês passado o caso de uma mãe de cinco filhos que luta por ganhar coragem para iniciar um programa de desintoxicação, outro o da "Emília" que deixou em casa três filhos entregues à mãe já lá vão uns vinte anos e que diz ter e não ter saudades deles, e mostra um ar abstracto cuja razão não conseguimos diagnosticar. Há dois meses foi uma catalã das Baleares que, saltitante, atravessou a rua no Pinheiro Torres cantarolando a Avé Maria, devoção que mantém bem arreigada mau grado a prisão da droga...
Mas positiva, positiva, é a alegria com que nos aguardam e agradecem, sinal de que a nossa visita produz efeitos. E é isso que queremos. É gratificante ver entre eles alguns que assumem já atitudes muito diferentes daquelas que lhes vimos nos primeiros contactos, e saber que outros encontraram outras formas de vida mais consentâneas com a dignidade própria de seres humanos.
- Quando voltam? - perguntavam alguns deles ontem.
Dando continuidade à "promessa" há muito feita, no próximo mês lá estaremos com eles novamente, rondando a cidade, as ruas, os becos, os portais...
Que Deus os proteja e lhes dê aquela "boa noite" que bem desejaríamos para cada um deles.
C.

sexta-feira, 12 de março de 2010

E a rua continua... Março 2010

Reduzidos ao mínimo, teimosamente, cá continuamos! A Rua chama-nos. Tendo atravessado um deserto que nos obrigou a interrogarmo-nos, pelos sinais que nos iam chegando, concluímos que a acção teria de prosseguir. Uma sucessão continuada de impedimentos parecia indicar que Deus nos dispensava. Mas... lendo bem a mensagem que no Evangelho nos deixou, essa indicação parecia não ter cabimento. Não batia certo. Que um ou outro seja "desviado" para tarefas de outra natureza, entende-se, mas já se não entende que TODOS o sejam. Se assim fosse não haveria lugar para a Caridade e Deus não quer isso.
De muitos lados temos leitores destas páginas e destas crónicas. Vêm , uns do Brasil (sobretudo do Brasil), outros de norte a sul e ilhas de Portugal, mas também dos EUA, França, Espanha, Holanda, Timor e até da Rússia. O interesse que tem vindo a ser manifestado nas notícias destas páginas aconselha a que continuemos.
Por outro lado, sem encomenda de qualquer natureza, pessoas caridosas que não têm condições de nos acompanhar inquiriam das datas em que voltaríamos à rua pois queriam participar preparando sandes ou ajudando de outra forma.
Sentíamos isto como sinais que nos estavam a ser enviados para não parar por aqui.
Não parámos, e aqui estamos!
Estamos e estivemos também já em Janeiro, em Fevereiro e agora em Março.
Em Fevereiro saímos apenas dois. Sem temor mas crendo que Deus nos acompanharia demos a volta completa até ao Aleixo e a Pinheiro Torres. Tivemos muitas sobras nesse dia que entregámos no dia seguinte nas Irmãs dos Pobres, no Pinheiro Manso.
Este mês o número cresceu. regressou a Elvira, acompanhou-nos também o marido, e agregou-se ao grupo o Aníbal C. que também abraçou a causa com muita dedicação. Estávamos junto à Câmara quando se associou também a Sofia e a filha (de 13 anos) que promete continuar. Já a conhecíamos e integrava outro grupo que rebentava de voluntários. Por isso achou melhor destacar-se dele e iniciar nova caminhada connosco. Bem-vinda! Creio que vai ser uma experiência forte e abençoada.
Na oração de partida abriu a Palavra o neófito do grupo, Aníbal, que, nem de propósito leu a passagem em S. Marcos, 12, 41:
"...Em verdade vos digo que esta viúva pobre deitou no tesouro mais do que todos os outros; porque todos deitaram do que lhes sobrava, mas ela, da sua penúria, deitou tudo quanto possuía, todo o seu sustento."
A mensagem vinha directamente para cada um de nós, que também estávamos ali para dar o que nos sobrava!... Era para estarmos atentos e não nos deixarmos iludir pelo orgulho de nos julgarmos mais do que aqueles que nada davam. Deus estava a colocar-nos no nosso lugar e a dizer-nos qual o tamanho da nossa caridade, do nosso amor.
Estranho o diálogo com uma mocita de 15 anos em Júlio Dinis na sequência da informação de que não falava com o pai e que nem o queria ver:
- Sabes o "Pai Nosso"?
- Não que isso é de "betinhos"!
Prosseguiu a nossa dialética com a menina alertando-a para o perigo daquela radicalidade ignorante dos valores, de experiência, da vida. Semeámos alertas e deixámos conselhos nomeadamente os que respeitam à necessidade de estudar. Mas a menina resolvia tudo em simples mudança: deixar a escola no 9º. ano e seguir um curso de representação - quer ser actriz - talvez num qualquer das "novas oportunidades" preparando para pouco, nada ou quase nada.
A nossa via sacra continuou ruas fora, parando nos locais habituais, encontrando rostos já amigos. Desviámos na Trindade ao encontro do Francisco. Mas que transformação!... Não parece o mesmo Francisco ensimesmado, que encontrávamos continuamente rabiscando quadradinhos de ponta a ponta das folhas A4 em linhas certinhas, como um exército de letras sem sentido. Ria, abriu os braços para nos acolher, falámos um pouco e lá o deixámos a caminho de um melhor lugar onde disse que agora estava. De facto estranhámos não o ter encontrado em Fevereiro no sítio do costume.
O nosso cabaz era abundante. Não regateámos distribuir sandes, fruta e o mais que levávamos. Por isso, do Carregal ainda fomos ao Aleixo e ao Bairro Pinheiro Torres, onde deixámos o resto. Ninguém ficou por servir a não ser o outro Francisco e companheiros no vão da escada de São Bento, por mero esquecimento.
E foi ali mesmo, numa roda de 6 (incluindo um amigo da rua que acabara de chegar) que rezámos a nossa oração de agradecimento por aquela noite, e pedimos por todos eles e pelas suas necessidades espirituais e materiais.
Deus, que tudo vê e provê segundo a nossa Fé, não os abandonará e, por isso, muitos franciscos se transformarão pela Sua Graça e viverão na Sua Paz.
É Quaresma, tempo de Oração, Sacrifício e Caridade. Ainda não o é de Aleluias, mas apetece gritar desde já e bem alto cantando Aleluia ao senhor pelas Suas maravilhas!
C.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

5º. Ano

Chuva e vento

Pois foi, a chuva e o vento não nos largavam...
Por isso a dúvida quanto à saída permaneceu até quase ao fim. Permaneceu para alguns porque interiormente estávamos decididos a ir fosse como fosse e qualquer que estivesse o tempo!
Havia muita gente impedida por motivos vários, e certos estavamos só três.
Combinámos alterar algumas coisas: o frio não convida tanto a sumos, por isso ensaiaríamos levar café com leite quente. A Margarida encarregou-se de levar os termos. O resto levaríamos nós. Mesmo assim apareceu com 30 sacos quase prontos. Adicionados ao que levávamos entre sandes, fruta, bolos diversos e leite com chocolate não foi nada mau.

Contra os nossos receios a noite nem foi fria nem chuvosa. Também não éramos só três mas cinco pois a Margarida apareceu com um casal jovem.
Foi um deles que abriu a Palavra: "David e Ciba":
" Tendo David descido um pouco a outra encosta do monte, viu Ciba, servo de Mefibosét, que vinha ao seu encontro com dois jumentos carregados com duzentos pães, cem cachos de uvas secas, cem peças de fruta da estação e um odre de vinho."

No decorrer da leitura recordei-me dos preparativos: "devem chegar cem maçãs... cem pacotes..."!
Por acaso não só chegou o que levávamos mas até sobrou porque a noite estava pouco convidativa a permanecer na rua e alguns decerto preferiram ficar sem ceia mas continuar resguardados, tanto quanto alguns puderam, do frio, do vento e da chuva.
Também contribuiu para isso a Chantal que, como vem sendo costume, se encarrega da Rua Júlio Dinis às Quartas-feiras e nos dispensou ali o serviço.
O certo é que, depois de termos corrido a cidade, descido ao Aleixo, ido ao Pinheiro Torres ainda tínhamos sacos completos, maçãs e sandes no carro, que tiveram como destino depois as Irmãzinhas dos Pobres.
Nada se perde se tudo se pode aproveitar.
Terminámos em Leça com a oração expontânea da amiga Mª. de Lurdes, cheia de inspiração e ternura.
Vão-se dissipando as dúvidas de como deveremos continuar na rua: é continuando... e Deus nos ajudará quanto ao mais.

Estar, querer estar e a determinação de continuar creio que é o fundamental. Será esse o objectivo principal. E, se pudermos fazer mais alguma coisa por eles, será o coroar da nossa dedicação.
Com a ajuda de Deus...

C.

sábado, 9 de janeiro de 2010

5º. ANO!!!


Jantar de Natal
Uma vez mais, desta vez no dia 2 de Janeiro, a Paróquia de Nª. Senhora da Conceição organizou e serviu o jantar de Natal aos Sem-abrigo da cidade do Porto.Para esse efeito contou com a disponibilidade de voluntários que, na sua maioria, são as pessoas da Porta Solidária que costumam servir as refeições diariamente aos Sem-abrigo, reforçadas por elementos de outros grupos da Paróquia, por anónimos que ajudam os Sem-abrigo, ou por pessoas que todos os anos acorrem ao pedido de apoio do Sr. Pe. Rubens. Ainda que não seja habitual destacar ninguém, não poderíamos deixar de mencionar a presença de 4 Irmãs do Instituto das Filhas da Pobreza do Santíssimo Sacramento, vulgarmente conhecidas como da “Toca de Assis”.
Já o ano passado tinham dado o seu contributo e assim quiseram fazer também neste.
Tendo como carisma o acolhimento e a dedicação aos Sem-abrigo, a sua presença aqui deixa antever o possível início de uma nova missão…
“Entrada Livre!”, dizia o “convite” a tempo distribuído pelos cantos da cidade.
E a ele responderam mais de 300 pessoas, frequentadoras habituais da rua ou nela residentes, com interesse tal que, ainda faltava uma hora para a abertura das portas do salão onde ia ser servido e já a fila de espera se alongava por mais de meio perímetro do templo. Viam-se ali alguns nossos conhecidos que não deixam por nada deste mundo o lugar onde recolhem a moedinha, e que esperaram pacientemente a hora do jantar sem um lamento ou manifestação de contrariedade.
Que se passava no espírito de cada um deles? O que fez, por exemplo, com que o P., revoltado crónico, ali estivesse aquele tempo todo, prescindindo da sua fonte de receita, sem vislumbre de azedume ou revolta? E, como ele, tantos outros...
Nem a chuva os demoveu ou fez atrasar.
Aberta a porta pontualmente às 20,00 horas depressa ficaram preenchidos os 230 lugares previamente preparados. À porta continuavam a assomar rostos impacientes. Acrescentaram-se mais mesas extra. Também estas ficaram rapidamente ocupadas. Esticou-se o espaço para a lateral, e também encheu…
O Sr. Bispo do Porto brindou-os com a sua presença. Também é pastor deles e já vem sendo habitual a sua participação neste jantar.
Curiosamente, a primeira pessoa que contactou ao entrar foi precisamente a superiora das Irmãs Filhas da Pobreza com quem estabeleceu um curto diálogo. E, ao saber que pertenciam à diocese de Braga e não do Porto, não perdeu tempo a lançar-lhes o desafio:
- Se pensarem fixar-se no Porto, FALEM COMIGO!
As mesas estavam cuidadosamente preparadas: arranjos ao centro, velas acesas.
A semi-obscuridade do salão contribuía para criar uma atmosfera de solenidade e respeito.
Com o início do serviço acenderam-se as luzes e o espaço encheu-se de claridade, do ruído dos talheres, do lufa-lufa dos voluntários no afã de servirem, uns o pão, outros os sumos, outros ainda o arroz quentinho acabado de sair dos panelões…
Comeram e repetiram.
Seguiram-se as sobremesas, a fruta, os doces, as rabanadas, o Vinho Generoso.
Os voluntários reuniram-se no palco para cantar as janeiras. Juntou-se-lhes o Sr. Bispo. E pela sala ecoou então o som de dezenas de vozes todas bem afinadas pelo ritmo do coração:
“Oh!... Acordai!... Jesus nasceu: Cantai! Cantai! Cantai!..."
“Nasceu em Belém
Jesus O Redentor.
Chegou à Terra o Amor,
A Luz, a Luz e a Salvação…”
E assim por diante até ao fim das 11 quadras. Cantava-se no palco, cantava-se e dançava-se no salão.Via-se alegria nos seus rostos e alegria contida nos corações de cada um de nós.
São horas como estas que dão razão às nossas vidas!
Em boa hora o Sr. Pe. Rubens entendeu que a hora é de acção, arregaçou as mangas e disse:
- Se não fazem os outros fazemos nós!
Sim, não devemos estar à espera de que sejam sempre os outros a dar o primeiro passo. Basta olhar à nossa volta e ver o que é preciso e, como ele, arregaçar as mangas, e ir...
São iniciativas como esta que devem multiplicar-se!
C.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Uma história de humildade

As "Irmazinhas dos Pobres" são uma instituição fundada por Santa Joana Jugan, santificada há poucos meses, uma francesa pobre que um dia levou para sua casa uma velhinha e a deitou na sua própria cama, passando a dormir no chão. Foi aí que nasceu o primeiro Lar de Terceira Idade orientada por estas irmãs.
Dá gosto ver como tratam dos velhinhos, com que amor falam com eles e aguentam alegremente as suas manias, tiques, teimosias, demencias. Vivem de andar a calcorrear as ruas no dia a dia batendo às portas a estender a mão a pedir, e da Providência Divina - daquilo que lhes aparece.
Têm critérios de aproveitamento fantásticos e a casa é de um arranjo, de uma limpeza, e de um bom gosto que só podem ser fruto de um grande amor. Invejável. E as irmãs na sua grande pobreza de vida estão muito asseadas mostrando que a pobreza não tem a ver com porcaria ou trapalhice, como tantas vezes acontece confundirmos.
Costumo ir lá à Missa e é muito bom ficar na capela depois a rezar - um silêncio, um ambiente acolhedor, um Cristo na Cruz lindíssimo ajudam a que possa fazer a minha "caminhada de silêncio" diária ali muitas vezes.

Há pouco tempo a Irmazinha Superiora da comunidade adoeceu e foi preciso substituí-la. Não sei como é feita a escolha da nova Madre só sei que a escolha caíu... espantem-se! ... sobre a "Irmazinha" da cozinha... O "mundo" habituou-me a pensar que normalmente o/a superior/a de uma comunidade se ía preparando percorrendo um caminho de "importância" dentro da ordem, até que um dia a escolha para superior/a recairía lógicamente sobre ele/a. Mas nunca viria da cozinha... Pois aqui não foi assim. De facto, todas as irmãs têm a mesma formação, e todas a renovam periodicamente. Depois, dentro da Instituição, cada uma ocupa lugares vários: ou vai para a rua pedir de porta em porta, ou tem a seu cargo a alimentação dos velhinhos acamados, ou é a sacristã, ou acompanha a Madre Superiora nas suas tarefas, ou está encarregue das partes lúdicas, ou está destinada á cozinha... não havendo, pois, razão nenhuma para que a irmã que vejo levar o lixo ao contentor na rua não venha a ser um dia a Madre Superiora da casa.
Ontem na Missa foi a apresentação da nova Irmazinha superiora. E com que humildade, simplicidade, e alegria todas a receberam! Este acontecimento alegrou-me muito e mostrou-me como há ainda quem viva a humildade e a simplicidade de Jesus. E a certeza de que o servir é que dá a importância e os "galões". Foi muito bom viver estas horas de fim de ano com as Irmazinhas dos Pobres.
Teresa Olazabal

sábado, 26 de dezembro de 2009


No meio da azáfama característica desta quadra, e com o senão de termos interrompido esses afazeres por causa imprevista, deixámos passar o dia de Natal sem que aqui o tivéssemos lembrado...
O Natal deve ser todos os dias, costuma ouvir-se. É verdade, mas embora o afirmemos sempre também sempre depressa o esquecemos...
De qualquer modo, e para que conste, desejamos a todos UM MUITO SANTO NATAL, e que o Deus-Menino permaneça e cresça sempre cada vez mais nos nossos corações.
E aproveitamos para desejar que o Ano de 2010, que brevemente se vai iniciar, preencha os desejos de cada um quanto à sua vida particular, e a todos traga a tão ansiada PAZ, Saúde, Pão, FELICIDADE!...
São os votos de franjas sociais.
C.

INÊS...

"Esta manhã (24/12) fui ao enterro da Inês às 11h em Vilar de Andorinho. Lindo. Já ontem à noite quando fui à capela mortuária com a Cuca e a Manela rezar um terço tive ocasião de perceber "aquele" sorriso tão misterioso nos olhos fechados dela. Foi um consolo.
Hoje houve uma cerimónia muito bonita - com a celebração da Palavra, uma homilia e a distribuição da Comunhão na Capela Matriz.
A Manela leu as leituras tão bonitas do Natal: "O povo que andava nas trevas viu uma grande luz. Para aqueles que habitavam nas sombras da morte uma luz começou a brilhar", e o Salvador - de que ela tanto gostava no que era correspondida, leu a oração dos fiéis pedindo "pelas famílias que nesta noite não têm casa, nem pão, nem amor...". Tudo girava à volta da vida da nossa querida Inês que, com a fotografia da entrega da caixa dos sonhos na Missa de Natal da Trindade ao lado dela no caixão, continuava a sorrir como se nos quisesse sossegar e dizer: "acabou-se a luta, estou em paz, mas... atenção! Continuo convosco".
O diácono que presidiu falou com uma sabedoria muito grande explicando que há filhos que estão mais perto e outros mais longe da família e da casa mas que nunca saem verdadeiramente dos corações dos seus pais. E se é assim no coração dos pais da terra, muito mais o é no coração do Pai do Céu - n'ELE nunca deixa de caber um filho. São nove irmãos e uma mãe de alguma idade.
Foram buscá-la ao Instituto de Medicina Legal logo que souberam que tinha morrido e levaram-na de volta à terra donde nasceu, enterraram-na com muita dignidade, e foi de lá que partiu para a sua definitiva morada. EM PAZ.Vai-nos custar esquecê-la... aquele jeito atolambado de ser, de se rir, aqueles passos gigantescos capazes de ultrapassar o tempo, aquele sorriso malandro e terno, os abaços sem fim... e, um segredo: a boneca...
Um dia contou-nos que foi mãe há perto de 7 anos. Entregou a filha ao médico que a assistiu no parto quando este lhe mostrou a evidência - que ela não teria nunca capacidades de educar uma criança no coreto do Jardim da Cordoaria. E era com uma boneca, a que vivia agarrada toda a noite, que ela compensava a dor e as saudades que tinha da Sofia.
A Cuca andou como louca de um lado para o outro nos sítios que sabemos terem sido os últimos momentos dela, à procura da boneca para hoje lha entregar. Em vão. Mas não importa porque agora, do Céu onde andará de um lado para o outro aos encontrões a tudo e a todos, ela pode olhar e gozar bem de perto a sua menina.Descansa em paz, Inês!"
(Texto da Teresa Olazabal)
Da minha parte quero-te dizer que não sabia nem imaginava que no passado dia 14, na Trindade, te estavas a despedir quando, à socapa, me vieste dar "aquele" abraço e me pespegaste dois sonoros beijos na face.
Ao pensar nisso sinto como que uma dívida para contigo: a de nunca te esquecer, e, especialmente, não deixar de rezar por ti. É o que vou procurar fazer. Que o que te faltou em vida em comodidades, atenção e carinho, te sobeje agora no Céu em Graça e Felicidade Eterna. E lembra-te também sempre de nós junto do ETERNO DEUS!

PNAM

Carlos

terça-feira, 22 de dezembro de 2009


"...A arma dos fortes foi destruida e os fracos revestidos de força.Os que viviam na abundancia andam em busca de pão e os que tinham fome foram saciados..."
(Do Salmo da Missa de hoje, 1Sm2, 1.4-5.6-7)
"A "nossa" Inês foi ontem para o Céu.
Dormindo na rua durante 25 anos, foi recolhida e reabilitada pelo nosso grupo.
Não sabia o que era uma cama.
Mas teve uma recaída há 15 dias.
Voltou para a rua e para o inferno da vida anterior.
Presa durante a noite, morreu não sabemos porquê.
No Ofertório da Missa de Natal fez questão de levar a "caixa dos sonhos". E fê-lo com uma convicção e uma dignidade total.
Agarrada com unhas e dentes à caixa, entregou no altar os seus sonhos: "- o de um dia poder viver dignamente: com emprego, casa e familia; - o de um dia poder ser olhada com respeito por todas as pessoas; - o de um dia poder ser livre, sem dependencias e sem precisar de estender a mão.

Como dizia há pouco uma amiga, agora vai realizá-los todos. Porque na verdade não era a "nossa" Inês mas sim a Inês "de Jesus" porque "a mais pequenina dos pequeninos" de tão mal amada, de tão maltratada, de tão despezada...

Inconsoláveis, acreditamos nas palavras deste Salmo:
"os que tinham fome foram saciados".
A Inês tinha uma fome insaciável de amor. E umas gargalhadas de menina. Abraçava toda a gente com a força de quem acredita que isso lhe minimizaria o sofrimento provocado pelas tantas feridas que tinha no coração e de que não se conseguia livrar...
"...Os fracos foram revestidos de força e os que tinham fome foram saciados...!"

(Teresa Olazabal)

Comentário:

Inês:
Quem disse que a Missa de Natal a 14 de Dezembro era prematura?
Pois foi a tua Missa de Natal!... Celebraste também este ano o teu Natal, o Natal de Jesus...
Tal como escreveu a amiga Teresa, abraçavas toda a gente, querias viver num momento o que não te era permitido usufruir ao longo da vida. Mas... naquele abraço que, por puro impulso teu, me vieste dar de surpresa na Igreja da Trindade, vejo agora o teu abraço de despedida!...
A vida foi muito madrasta para ti, mas que tudo quanto te deram em sofrimento te seja agora dado no Céu em recompensa por toda a eternidade!...
Elevamos ao Céu as nossas orações mas estou certo de que não precisarás delas, e, por isso te peço: Pede a Deus por nós!...
P.N.A.M.
Carlos

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Missa de Natal dos Sem-abrigo




"Mais do que comentários, deixo aqui os tres pontos altos da Missa:
Ofertório, Pai Nosso, Poema da Margarida
O OFERTÓRIO
Foram oferecidos ao Senhor presentes - dos Amigos da Rua e do nosso grupo - que eram mostrados ao povo de Deus ali reunido, enquanto a Joana lia pausadamente o sentido de cada entrega:
A Laura e o João, um casal da rua, aproximam-se do altar com uma caixa de cartão dobrada e um cobertor:
"Oferecemos-Te Senhor a nossa cama muitas vezes o único conforto na solidão e no frio das noites compridas de inverno. Tu, que também nasceste no desconforto da manjedoura, acolhe-nos e aquece os nossos corações com o Teu Amor".
A Sónia, mãe de três filhos, no desemprego, bem como o marido, aproxima-se do altar com um pão seco:
"Oferecemos-Te Senhor este pão, sinal da nossa carência e da nossa fome: fome de alimentos, fome de carinho, fome de companhia. Tu que mataste a fome aos famintos, sê o Pão, o alimento, e o amor das nossas vidas".
A Marta, do nosso grupo, aproxima-se do altar com um recipiente cheio de cacos, de várias cores:
Oferecemos-Te Senhor estes cacos, sinal das nossas vidas tantas vezes estragadas, fúteis, partidas e sem sentido. Dá-nos, Senhor, a Tua ajuda e refaz as nossas esperanças e alegrias tantas vezes quebradas e perdidas.
A Joana, do nosso grupo, aproxima-se do altar com um "saco-ternura":
Oferecemos-Te, Senhor, este saco de plástico a que chamamos "saco-ternura" onde todos os meses colocamos não só os alimentos para os Amigos da Rua, mas também o nosso amor, a nossa atenção, a nossa companhia e a nossa alegria em podermos partilhar com eles as nossas vidas. E nunca permitas que desanimemos de servir-Te nestes irmãos e irmãs.
A Inês, sem-abrigo, leva uma caixa "doirada" com tres papeis escritos:
Oferecemos-Te, Senhor, estes nossos sonhos: - de um dia podermos viver dignamente com emprego, casa e familia; - o de um dia podermos ser olhados com respeito por todas as pessoas; - o de um dia podermos ser livres, sem dependências e sem percisarmos que estender a mão para satisfazer as nossas necessidades essenciais. Senhor, alimenta e anima cada vez mais estes nossos sonhos.
A Rosa e o Armando, dois Amigos da Rua, aproximam-se do altar com as hóstias e as galhetas:
Oferecemos-Te, Senhor, o pão e o vinho que em breve se irão transformar em Jesus, o Alimento que vem do Céu. Com este pão e este vinho vão as nossas dores, trabalhos e solidões. Aceita-os, Senhor.
O PAI NOSSO

O Senhor Padre Fabião convidou-nos a dar as mãos de maneira a que não houvesse uma mão desgarrada, solta, sozinha. E a Igreja transformou-se como que por magia num imenso cordão que incluía o altar e ía até ao último banco. Pediu-nos um instante de silêncio que de tão calado pesou fundo nos corações e rezámos emocionadamente não só o Pai Nosso como as orações seguintes numa comunhão imensa, incrível.
O POEMA DA MARGARIDA:

O Poema da Margarida... é "simplesmente" este... que a Rosarinho nos fez chegar numa leitura feita directamente do coração:
"Irmão meu, filho do mesmo DeusQue nos criou num milagre de amorQuero hoje entregar-lhe as tuas mágoasEstar contigo, firme, a implorar com fervor:Que me livre do egoísmo que me cega,Das comodidades que tenho sem merecer,De não te dar a mão, peregrino das ruas,De não ser uma esperança para o teu viver.Quero ajudar-te , mas…sozinha não consigoDar-te pão, carinho, dar-te abrigo,Ser luz na tua noite, maná das tuas fomesQue por tantas que são, nem sei delas os nomes…Irmão meu, alegra-te, há ALGUÉM poderosoQue o nosso impossível pode realizarTe olha e te ampara com amor de PaiE, por amor nasceu para nos salvar.O Menino do Presépio é o mesmo DeusQue continua hoje a olhar-te com amorIrmão meu, testemunha de dolorosas horas,De noites gélidas, sem pão e sem calor.Levanta-te do chão e olha o Céu aberto!Olha Jesus a dar-te a mão e num abraçoElevar-te da terra ao infinito espaço!Para te fazer sentir toda a consolação,Toda a misericórdia, toda a redençãoO seu imenso amor, o seu total perdãoSua entrega total, sem nenhuma condição.Dá-lhe a tua mão irmão e sente o seu abraço,Agarra-a com força, e vais ver que és capazDe mudar pouco a pouco a tua vida,Sentir no coração o bálsamo da Sua Paz."
Margarida Martins Alves, Natal 2009
Depois, "O SOCIAL" cá fóra:
"Sacos-ternura"; presentes para homens, senhoras e crianças; perú "acompanhado"; bolo rei, chocolate quente, sumos, café e Vinho do Porto. Para além da generosidade de todos, não poderia deixar de agradecer à Zé Pinho que forneceu o perú e ao Luis Vieira de Castro que ofereceu o Bolo Rei.
O Largo da Trindade era um imenso sorriso... Os olhares eram estrelas cheias de Luz... As palavras que mais nos chegavam era um "obrigada, e que o Senhor vos acrescente".
É pois com estas mesmas palavras que termino esta "notícia":
"OBRIGADA, E QUE O SENHOR VOS ACRESCENTE!"
AMEN - ALELUIA"

(Relatado por Teresa Olazabal)

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

O acto e a intenção

Há uns tempos que, fruto de meditação e da observação de procedimentos, congeminei escrever sobre este assunto. Não é matéria nova, longe disso, mas, às vezes, certas atitudes podem gerar equívocos se não estivermos sabiamente avisados, e se não tivermos o suficiente discernimento, e é sempre bom saber separar as águas.
Este tema tem um duplo interesse: material e moral.
Na ordem material, as leis das nações, prevendo a ocorrência de situações gravemente condenáveis, sujeitam a punição dos comportamentos humanos à verificação do facto (o "acto") e do intuito (o "animus"). Daí o fazer-se depender de procedimento "doloso" a possibilidade de punição de certos comportamentos tipificados como crime ou faltas no âmbito administrativo sancionadas de outra forma. Só em casos especiais previamente identificados se poderá punir por simples negligência (quando se atribui ao sujeito um especial dever de cuidado).
Por isso, no âmbito civil, concorrem para a punição dos comportamentos individuais o acto e a intenção.
Também segundo a Lei de Deus, que é a que verdadeiramente comanda o Homem no seu todo, por maioria de razão, se exige que, para existir comportamento punível na ordem espiritual haja perfeito concurso desses dois elementos: do acto e da intenção.
Reza o Catecismo da Igreja Católica que, para que se verifique falta grave a qualquer dos preceitos divinos, é indispensável que estejam reunidos quatro requisitos: ser matéria grave, haver pleno conhecimento, agir com intenção e a prática do acto.
Do Catecismo da Igreja Católica:
"§1858 - A matéria grave é precisada pelos Dez mandamentos".
"§1859 - O pecado mortal requer pleno conhecimento e pleno consentimento (que abrange a intenção). Pressupõe o conhecimento do caráter pecaminoso do ato, de sua oposição à lei de Deus. Envolve também um consentimento suficientemente deliberado para ser uma escolha pessoal. A ignorância afetada e o endurecimento do coração não diminuem, antes aumentam, o carácter voluntário do pecado."
Mas embora todos os actos humanos presuponham a existência de uma intenção, poucos são os que estão sujeitos a sancionamento.
O mesmo não acontece no plano espiritual pois todos, mas mesmo TODOS os nossos actos estão naturalmente submetidos à Justiça Divina, que um dia será exercida sobre nós.
É esta a matéria que nos interessa para sabermos qual o procedimento que agrada a Deus, e qual o julgamento que Deus fará dos nossos actos.
Os Evangelhos estão cheios de exemplos de procedimentos em que a intenção e o acto se não adequam. Seria exaustivo enumerá-los todos, mas poderemos, quase que aleatoriamente, indicar alguns mais representativos.
Abrangendo, como que em definição, a oposição entre o acto e a intenção, S. Mateus relata as palavras de Jesus em 15,8: Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim." Idem S. Marcos, 7, 6.
Mas uma das descrições que melhor retrata a oposição e a adequação entre a intenção e o acto é a constante em Mt. 21, 28-30 sobre o procedimento dos dois filhos convidados para ir trabalhar na vinha. "Qual dos dois fez a vontade do Pai?" - perguntou Jesus.
E em S. Marcos, 2, 23-27, surge com clareza a razão de não ser condenável o facto de os discípulos se terem servido das espigas ao Sábado, e de David ter distribuído os pães da proposição. A intenção dos primeiros não era a de desprezar a observação do Sábado nem do segundo as leis do Templo.
E como julgar à luz dos procedimentos dos homens a expulsão dos vendilhões do Templo? (S. Marcos, 11, 15-18.). A motivação está na afirmação de que "A Minha casa será chamada casa de oração para todos os povos", "mas vós fizestes dela um covil de ladrões.". A desordem ocasionada aparece justificada pelo fim, que lhe é superior: preservar a casa da oração.
Contudo, uma das passagens em que a intenção se mostra com mais força, é em S. Marcos, 13, 41-44, relativamente ao óbolo da viúva pobre. As duas pequenas moedas têm mais peso na apreciação divina que as chorudas esmolas dos ricos, porque a intenção da viúva foi dar tudo quanto tinha.
(A continuar)

Quem conduz este combóio é o meu Pai!



ERA UMA VEZ UM RAPAZINHO DE APROXIMADAMENTE 5 ANOS, QUE CORRIA DUM LADO PARA O OUTRO NUM COMBOIO QUE CIRCULAVA RAPIDAMENTE ENTRE O PORTO E LISBOA. UM SENHOR, IMPRESSIONADO COM O QUE LHE PODIA ACONTECER NAS CURVAS, TRAVAGENS E ACELERADELAS DO ANDAMENTO DO COMBOIO, CHAMOU-O E DISSE-LHE:
"- OLHA, MEU MENINO, TENS QUE TER MUITO CUIDADO PORQUE PODES-TE MAGOAR! MAIS VALIA FICARES SENTADO EM VEZ DE ANDARES NESSAS CORRERIAS, SENÃO AINDA TE MAGOAS!"
"- NÃO, NÃO! NÃO ME MAGOO NÃO!"
"- E COMO SABES QUE NÃO TE MAGOAS?"
"- É QUE QUEM VAI A CONDUZIR ESTE COMBOIO É O MEU PAI!"
"QUEM VAI A CONDUZIR ESTE COMBOIO É OMEU PAI!"
Toda a manhã choveu torrencialmente e anunciavam chuva para a noite. De Coimbra recebemos uma mensagem preocupante: a pessoa que trazia os "mimos" que compunham aquele habitual GRANDE cabaz não aparecia, não estava contactável, não se se sabia se as coisas iriam chegar... A história - verdadeira - do menino do comboio que me tinha sido contada na véspera não me largava: "quem vai a conduzir este comboio é o meu Pai!"...
A aparelhagem de som que tínhamos tido a necessidade de arranjar à ultima da hora porque a outra não estava a resultar e era preciso que a oração fosse ouvida por todos e também era preciso dar mais "voz" às 3 violas que agora fazem parte do côro, este novo côro que se "vira e revira" para dar mais força à oração, mostrava-se avessa a dar o som certo, e eu pensava: "quem vai a conduzir este comboio é o meu Pai!"
Recebi uma mensagem a prevenir que a "x" estava bêbada e ía estragar a noite e eu teimava em acreditar: "quem vai a conduzir este comboio é o meu Pai"...
Acabada a oração com o tema: "Preparação para o Nascimento", que foi encerrada por uma música cheia de força e de alegria, uma multidão esfomeada cercou-nos ansiosa. Mas as travessas servidas à volta por amigos cheios de alegria e amor estavam repletas e chegou para todos. As caras foram-se alegrando, e apesar de algumas cenas de violência (que infelizmente vão sendo cada vez mais comuns) a noite acabou em paz. O ar estava morno, a chuva foi chover para outra cidade, e a "x" despediu-se de nós com um lindo fado...
Não há dúvida de que ***QUEM VAI A CONDUZIR ESTE COMBOIO É O MEU PAI***

Relato da noite da última Quarta-Feira na Trindade, de Teresa Olazabal

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Experiências da rua

Por onde começar?
Decidimos fazer um relato mais alargado recuando ao mês anterior. É que a acção não é instantânea mas se alonga no tempo, por dias, semanas, meses... e, às vezes, até anos!
A persistência é um dom a não esquecer. Só com Fé e teimosia se conseguem mover montanhas. Ainda que sejam as montanhas artificialmente criadas pelo próprio Homem em torno de si próprio, ou em si mesmo.
No mês transacto continuámos o acompanhamento seleccionado de alguns amigos na tentativa de os levar a mudar o rumo das suas vidas. Privilegiámos um casal novo, na casa dos trinta. Fomos ao seu encontro no fim do mês e tivemos a grata surpresa de sermos por eles recebidos com alegria mesmo esfusiante, desejosos que estavam de nos transmitir a certeza de que estavam mesmo, não decididos, mas A MUDAR!...
Apresentaram-nos os responsáveis da associação que os acompanha com quem pudemos conversar, e certificar-nos de que estavam no rumo certo.
Anteriormente tinham-nos apresentado um pedido simples: eram casados pela Igreja e queriam que todos o soubessem; para isso gostavam de ter alianças mas alianças de verdade, ainda que fossem simples alianças de latão!
Registámos o pedido, pusemo-nos em campo, descobrimos a Paróquia onde tinham casado, obtivemos a cópia do Assento de Casamento, e encomendámos umas alianças de prata dourada gravadas com a data e o nome de cada um.
O aniversário era a 31 de Outubro. Nesse dia, à noite, fizemos-lhes a surpresa: oferecemos-lhes as alianças, um farnel adequado, e o Assento de Casamento! Quando lho demos, disse a senhora:
- Ai!... Era mesmo isso que lhes íamos pedir!
Não foi necessário pedir. Adivinhámos o desejo e foi com enorme gosto que lhes demos essa alegria!
A saída de Quarta-Feira teve de ser adiada para Quinta, ontem, por causa dos festejos do S. Martinho, nosso Padroeiro.
Feitas algumas compras para a distribuição da noite, empurrando o carrinho quem me aparece à frente? Ela mesma em pessoa, fora do círculo que lhe era habitual, sozinha! Ficámos a cavaquear durante uma boa meia-hora sobre o tratamento a que se submeteram, sobre a sua decisão, sobre os motivos porque os tratamentos anteriores não tinham resultado, etc., etc., etc.
- Sabe?, não sei porquê gosto mesmo de conversar consigo... As outras pessoas... não sei, não é a mesma coisa! Tem um modo de conversar diferente...
Rservei duas medalhas Milagrosos para lhes entregar à noite, mas não apareceram. Nessa tarde tínha-me dito:
- Sabe? às vezes até já não vamos aos carros; não nos sentimos bem e preferimos ficar no nosso quartinho.
Devem, por isso, ter ficado no seu quartinho. É preciso rezar por eles, empurrá-los com a Graça de Deus!
De resto a noite, com 4 na equipa, foi um pouco diferente. Íamos preparados com 40 sacos para o Aleixo, e mais cerca de 60 para a cidade, e fruta, leite com chocolate e sandes avulso.
À última hora, porque eram ainda 21,30 horas, pensámos alterar a volta começando pelo Aleixo. Deste modo tínhamos a certeza de que todos quantos nos procurassem receberiam o seu quinhão. Só que os sacos a eles destinados já estavam acondicionados no fundo da bagageira. Mas não era impedimento: poderiam tirar-se por dentro, rebatendo o banco.
A solução não demonstrou ser a melhor porque a nossa acompanhante de serviço, que tinha trazido algumas roupas, se viu atrapalhada querendo entregar uma e outra coisa! A aglomeração era grande, com fome e no stress habitual quase que exigiam que lhes dessem os sacos que estavam ali mesmo à mostra, mas que não eram tão completos como os que lhes estavam reservados. Entre sacos, roupa e o sumo, que ia sendo distribuído à medida que chegavam, ultrapassou-se a balbúrdia que não permitiu nenhuma aproximação individual.
Não pôde aqui ser semeada a Palavra que saíra na nossa oração: 1ª. Coríntios, 1, 23 - Respeito pelos outros.
Sem semearmos nos seus corações, retivemos, no entanto, o recado: "quer comais, quer bebais, quer façais qualquer outra coisa, fazei tudo para glória da Deus.".
E para maior glória e honra de Deus ali estávamos, cientes de que, por nós, nada conseguimos resolver, e, por isso, nos entregamos e confiamos em Deus que, ELE sim, tudo pode.
Indo à cidade, andámos positivamente a tropeçar em ajudas: o Colégio do Rosário, os Samaritanos - ambos habituais - e mais três ou quatro grupos novos de que não conhecemos o nome nem a história. A Caridade não tem dono, é certo, mas viemos para casa a pensar se não será altura de dar lugar aos que acabam de chegar, possivelmente com mais meios e capacidade, e de optar por outro tipo de abordagem.
"Tudo é permitido mas nem tudo é conveniente. Ninguém procure o seu próprio interesse mas o dos outros." - dizia a leitura. E qual é o interesse dos outros neste caso?
"Fazei como eu, que me esforço para agradar a todos em tudo, ... a fim de que eles sejam salvos."
Terminámos a nossa noite agradecendo e pedindo o devido discernimento para que, entre o que é permitido descubramos o que é também conveniente na abordagem dos carenciados de quem nos aproximamos.
A Paz de Deus fique nos corações de todos quantos lerem estes curtos relatos, que estão a ter leitores de norte a sul do Brasil, na Espanha, Holanda, em Sacramento dos Estados Unidos da América do Norte, e, claro, em Portugal. Que a semente que queremos deixar no coração de quem encontrarmos no nosso caminho germine e cresça também nos corações dos nossos leitores, a quem saudamos na fraternidade de Jesus.
Avé Maria!
Novembro de 2009
C.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Outra saída - Outubro 2009

Foi no dia 8 que, por troca e impossibilidade de o fazer na Quarta-Feira, saímos à rua este mês. Isso trouxe-nos alguma complicação porque nem todos ficaram avisados como era conveniente e uma amiga - a M. Elvira - surpreendeu-me na noite de Quarta- Feira com uma chamada em que perguntava onde estávamos e se não íamos à rua naquele dia. Percebi a sua confusão e desilusão porque estava "lá" com os seus mimos, sozinha!
- Preparei estas coisas para eles e não as levo para casa! Se não vêm vou eu levá-las onde puder.
E foi assim que a M. Elvira saíu, acompanhada do marido, pelas ruas do Porto em início antecipado da saída do dia seguinte!...
Acautelada, lá foi informando que, embora sozinha, era a nossa representante naquela noite! Entregou tudo na Rua Júlio Dinis.
No dia seguinte faltou-nos o contributo da Nobreza, que já tinha destino para as suas sobras do dia, e a companhia da M. Elvira, de quem já tínhamos saudades, e nos fazia falta.
Mas, mesmo com essas limitações tudo acabou por correr bem. Frustrada no seu desejo de entregar no Aleixo as descomunais sandes de broa recheada com enchidos preparadas com esmero e carinho, a M. de Lurdes viu ir parar o resultado de todo o seu trabalho às mãos dos que foram aparecendo na Câmara, na Batalha, no Carregal, no H. de Stº. António...
Para sua consolação ainda fomos ao Aleixo com meia dúzia das suas sandes. Por ironia, bastaram! Foram cinco ou seis os que apareceram.
Foi uma noite de encontros. Apareceram muitos de quem não tínhamos notícia e que prourávamos: O Fernando (da Avenida), que fomos encontrar aboletado debaixo das escadas que dão acesso aos sanitários de S. Bento, o António (que já está outra vez num quartinho na R. do Rosário, e que apareceu limpo e asseado), o Francisco (que de alegre até tropeçava nas palavras e nos deu dois fortes abraços).
Junto ao Stº. António reapareceu o Amadeu. Ao lado sussurrou outro:
- Foi meu companheiro na prisão. Acabou de sair da prisão.
- ?!...
- Estive 13 anos em Vale de Judeus. Não nos dão trabalho, temos de nos safar!
Perante essa confissão não provocada, optei por lhe dar um conselho:
- Antes de fazer qualquer coisa pare e pense se isso irá prejudicar alguém. Quando abdicamos de alguma coisa em favor dos outros sentimo-nos mais felizes do que se satisfizermos os nossos desejos.
Lá seguiram ambos em direcção indefinida, na rua e na vida. Tentando safar-se!