quinta-feira, 9 de setembro de 2010

De volta...

Setembro.2010
Já não são as noites cálidas do nosso Verão aquelas que encontramos quando saímos ao encontro daqueles que dia-a-dia, semana-a-semana, mês-a-mês nos aguardam nas ruas do Porto.
Este blog tem estado em silêncio mas a nossa actividade não parou. Todos os meses temos saído, com exclusão de Maio. Ainda que não seja propriamente aliciante o tema nem agradável a miséria, congratulamo-nos com os leitores que nos vêm visitando com regularidade nos países onde residem, nomeadamente os mais assíduos, que são os que moram na Califórnia (USA), Rússia, Brasil (muitos), e em Portugal.
Os relatos também não têm em vista fazer propaganda (de quê?!...) mas apenas permitir tomar contacto com esta nossa realidade a quem noutras latitudes se dedica igualmente à tarefa de ir ao encontro "do outro" para que da experiência de uns e de outros resulte um melhor conhecimento de como deveremos actuar.
Ontem lá fomos uma vez mais, lutando com falta de voluntários mas esperando e confiando. E, se uns faltam, outros vêm.
Não são bons os tempos que atravessamos e a rua vai-no-lo lembrando: São muitas as caras novas que espelham amarguras e desaires da vida e que dia-a-dia aumentam o número dos que nos aguardam.
Era farta a mesa que levávamos ontem mas tudo acabou na Rua do Rosário. Há já três meses que não conseguimos descer ao Aleixo.
Não têm surgido casos que mereçam especial atenção a não ser as mães novitas que nos aparecem acompanhadas dos seus filhitos. Excepção foram no mês passado o caso de uma mãe de cinco filhos que luta por ganhar coragem para iniciar um programa de desintoxicação, outro o da "Emília" que deixou em casa três filhos entregues à mãe já lá vão uns vinte anos e que diz ter e não ter saudades deles, e mostra um ar abstracto cuja razão não conseguimos diagnosticar. Há dois meses foi uma catalã das Baleares que, saltitante, atravessou a rua no Pinheiro Torres cantarolando a Avé Maria, devoção que mantém bem arreigada mau grado a prisão da droga...
Mas positiva, positiva, é a alegria com que nos aguardam e agradecem, sinal de que a nossa visita produz efeitos. E é isso que queremos. É gratificante ver entre eles alguns que assumem já atitudes muito diferentes daquelas que lhes vimos nos primeiros contactos, e saber que outros encontraram outras formas de vida mais consentâneas com a dignidade própria de seres humanos.
- Quando voltam? - perguntavam alguns deles ontem.
Dando continuidade à "promessa" há muito feita, no próximo mês lá estaremos com eles novamente, rondando a cidade, as ruas, os becos, os portais...
Que Deus os proteja e lhes dê aquela "boa noite" que bem desejaríamos para cada um deles.
C.

sexta-feira, 12 de março de 2010

E a rua continua... Março 2010

Reduzidos ao mínimo, teimosamente, cá continuamos! A Rua chama-nos. Tendo atravessado um deserto que nos obrigou a interrogarmo-nos, pelos sinais que nos iam chegando, concluímos que a acção teria de prosseguir. Uma sucessão continuada de impedimentos parecia indicar que Deus nos dispensava. Mas... lendo bem a mensagem que no Evangelho nos deixou, essa indicação parecia não ter cabimento. Não batia certo. Que um ou outro seja "desviado" para tarefas de outra natureza, entende-se, mas já se não entende que TODOS o sejam. Se assim fosse não haveria lugar para a Caridade e Deus não quer isso.
De muitos lados temos leitores destas páginas e destas crónicas. Vêm , uns do Brasil (sobretudo do Brasil), outros de norte a sul e ilhas de Portugal, mas também dos EUA, França, Espanha, Holanda, Timor e até da Rússia. O interesse que tem vindo a ser manifestado nas notícias destas páginas aconselha a que continuemos.
Por outro lado, sem encomenda de qualquer natureza, pessoas caridosas que não têm condições de nos acompanhar inquiriam das datas em que voltaríamos à rua pois queriam participar preparando sandes ou ajudando de outra forma.
Sentíamos isto como sinais que nos estavam a ser enviados para não parar por aqui.
Não parámos, e aqui estamos!
Estamos e estivemos também já em Janeiro, em Fevereiro e agora em Março.
Em Fevereiro saímos apenas dois. Sem temor mas crendo que Deus nos acompanharia demos a volta completa até ao Aleixo e a Pinheiro Torres. Tivemos muitas sobras nesse dia que entregámos no dia seguinte nas Irmãs dos Pobres, no Pinheiro Manso.
Este mês o número cresceu. regressou a Elvira, acompanhou-nos também o marido, e agregou-se ao grupo o Aníbal C. que também abraçou a causa com muita dedicação. Estávamos junto à Câmara quando se associou também a Sofia e a filha (de 13 anos) que promete continuar. Já a conhecíamos e integrava outro grupo que rebentava de voluntários. Por isso achou melhor destacar-se dele e iniciar nova caminhada connosco. Bem-vinda! Creio que vai ser uma experiência forte e abençoada.
Na oração de partida abriu a Palavra o neófito do grupo, Aníbal, que, nem de propósito leu a passagem em S. Marcos, 12, 41:
"...Em verdade vos digo que esta viúva pobre deitou no tesouro mais do que todos os outros; porque todos deitaram do que lhes sobrava, mas ela, da sua penúria, deitou tudo quanto possuía, todo o seu sustento."
A mensagem vinha directamente para cada um de nós, que também estávamos ali para dar o que nos sobrava!... Era para estarmos atentos e não nos deixarmos iludir pelo orgulho de nos julgarmos mais do que aqueles que nada davam. Deus estava a colocar-nos no nosso lugar e a dizer-nos qual o tamanho da nossa caridade, do nosso amor.
Estranho o diálogo com uma mocita de 15 anos em Júlio Dinis na sequência da informação de que não falava com o pai e que nem o queria ver:
- Sabes o "Pai Nosso"?
- Não que isso é de "betinhos"!
Prosseguiu a nossa dialética com a menina alertando-a para o perigo daquela radicalidade ignorante dos valores, de experiência, da vida. Semeámos alertas e deixámos conselhos nomeadamente os que respeitam à necessidade de estudar. Mas a menina resolvia tudo em simples mudança: deixar a escola no 9º. ano e seguir um curso de representação - quer ser actriz - talvez num qualquer das "novas oportunidades" preparando para pouco, nada ou quase nada.
A nossa via sacra continuou ruas fora, parando nos locais habituais, encontrando rostos já amigos. Desviámos na Trindade ao encontro do Francisco. Mas que transformação!... Não parece o mesmo Francisco ensimesmado, que encontrávamos continuamente rabiscando quadradinhos de ponta a ponta das folhas A4 em linhas certinhas, como um exército de letras sem sentido. Ria, abriu os braços para nos acolher, falámos um pouco e lá o deixámos a caminho de um melhor lugar onde disse que agora estava. De facto estranhámos não o ter encontrado em Fevereiro no sítio do costume.
O nosso cabaz era abundante. Não regateámos distribuir sandes, fruta e o mais que levávamos. Por isso, do Carregal ainda fomos ao Aleixo e ao Bairro Pinheiro Torres, onde deixámos o resto. Ninguém ficou por servir a não ser o outro Francisco e companheiros no vão da escada de São Bento, por mero esquecimento.
E foi ali mesmo, numa roda de 6 (incluindo um amigo da rua que acabara de chegar) que rezámos a nossa oração de agradecimento por aquela noite, e pedimos por todos eles e pelas suas necessidades espirituais e materiais.
Deus, que tudo vê e provê segundo a nossa Fé, não os abandonará e, por isso, muitos franciscos se transformarão pela Sua Graça e viverão na Sua Paz.
É Quaresma, tempo de Oração, Sacrifício e Caridade. Ainda não o é de Aleluias, mas apetece gritar desde já e bem alto cantando Aleluia ao senhor pelas Suas maravilhas!
C.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

5º. Ano

Chuva e vento

Pois foi, a chuva e o vento não nos largavam...
Por isso a dúvida quanto à saída permaneceu até quase ao fim. Permaneceu para alguns porque interiormente estávamos decididos a ir fosse como fosse e qualquer que estivesse o tempo!
Havia muita gente impedida por motivos vários, e certos estavamos só três.
Combinámos alterar algumas coisas: o frio não convida tanto a sumos, por isso ensaiaríamos levar café com leite quente. A Margarida encarregou-se de levar os termos. O resto levaríamos nós. Mesmo assim apareceu com 30 sacos quase prontos. Adicionados ao que levávamos entre sandes, fruta, bolos diversos e leite com chocolate não foi nada mau.

Contra os nossos receios a noite nem foi fria nem chuvosa. Também não éramos só três mas cinco pois a Margarida apareceu com um casal jovem.
Foi um deles que abriu a Palavra: "David e Ciba":
" Tendo David descido um pouco a outra encosta do monte, viu Ciba, servo de Mefibosét, que vinha ao seu encontro com dois jumentos carregados com duzentos pães, cem cachos de uvas secas, cem peças de fruta da estação e um odre de vinho."

No decorrer da leitura recordei-me dos preparativos: "devem chegar cem maçãs... cem pacotes..."!
Por acaso não só chegou o que levávamos mas até sobrou porque a noite estava pouco convidativa a permanecer na rua e alguns decerto preferiram ficar sem ceia mas continuar resguardados, tanto quanto alguns puderam, do frio, do vento e da chuva.
Também contribuiu para isso a Chantal que, como vem sendo costume, se encarrega da Rua Júlio Dinis às Quartas-feiras e nos dispensou ali o serviço.
O certo é que, depois de termos corrido a cidade, descido ao Aleixo, ido ao Pinheiro Torres ainda tínhamos sacos completos, maçãs e sandes no carro, que tiveram como destino depois as Irmãzinhas dos Pobres.
Nada se perde se tudo se pode aproveitar.
Terminámos em Leça com a oração expontânea da amiga Mª. de Lurdes, cheia de inspiração e ternura.
Vão-se dissipando as dúvidas de como deveremos continuar na rua: é continuando... e Deus nos ajudará quanto ao mais.

Estar, querer estar e a determinação de continuar creio que é o fundamental. Será esse o objectivo principal. E, se pudermos fazer mais alguma coisa por eles, será o coroar da nossa dedicação.
Com a ajuda de Deus...

C.

sábado, 9 de janeiro de 2010

5º. ANO!!!


Jantar de Natal
Uma vez mais, desta vez no dia 2 de Janeiro, a Paróquia de Nª. Senhora da Conceição organizou e serviu o jantar de Natal aos Sem-abrigo da cidade do Porto.Para esse efeito contou com a disponibilidade de voluntários que, na sua maioria, são as pessoas da Porta Solidária que costumam servir as refeições diariamente aos Sem-abrigo, reforçadas por elementos de outros grupos da Paróquia, por anónimos que ajudam os Sem-abrigo, ou por pessoas que todos os anos acorrem ao pedido de apoio do Sr. Pe. Rubens. Ainda que não seja habitual destacar ninguém, não poderíamos deixar de mencionar a presença de 4 Irmãs do Instituto das Filhas da Pobreza do Santíssimo Sacramento, vulgarmente conhecidas como da “Toca de Assis”.
Já o ano passado tinham dado o seu contributo e assim quiseram fazer também neste.
Tendo como carisma o acolhimento e a dedicação aos Sem-abrigo, a sua presença aqui deixa antever o possível início de uma nova missão…
“Entrada Livre!”, dizia o “convite” a tempo distribuído pelos cantos da cidade.
E a ele responderam mais de 300 pessoas, frequentadoras habituais da rua ou nela residentes, com interesse tal que, ainda faltava uma hora para a abertura das portas do salão onde ia ser servido e já a fila de espera se alongava por mais de meio perímetro do templo. Viam-se ali alguns nossos conhecidos que não deixam por nada deste mundo o lugar onde recolhem a moedinha, e que esperaram pacientemente a hora do jantar sem um lamento ou manifestação de contrariedade.
Que se passava no espírito de cada um deles? O que fez, por exemplo, com que o P., revoltado crónico, ali estivesse aquele tempo todo, prescindindo da sua fonte de receita, sem vislumbre de azedume ou revolta? E, como ele, tantos outros...
Nem a chuva os demoveu ou fez atrasar.
Aberta a porta pontualmente às 20,00 horas depressa ficaram preenchidos os 230 lugares previamente preparados. À porta continuavam a assomar rostos impacientes. Acrescentaram-se mais mesas extra. Também estas ficaram rapidamente ocupadas. Esticou-se o espaço para a lateral, e também encheu…
O Sr. Bispo do Porto brindou-os com a sua presença. Também é pastor deles e já vem sendo habitual a sua participação neste jantar.
Curiosamente, a primeira pessoa que contactou ao entrar foi precisamente a superiora das Irmãs Filhas da Pobreza com quem estabeleceu um curto diálogo. E, ao saber que pertenciam à diocese de Braga e não do Porto, não perdeu tempo a lançar-lhes o desafio:
- Se pensarem fixar-se no Porto, FALEM COMIGO!
As mesas estavam cuidadosamente preparadas: arranjos ao centro, velas acesas.
A semi-obscuridade do salão contribuía para criar uma atmosfera de solenidade e respeito.
Com o início do serviço acenderam-se as luzes e o espaço encheu-se de claridade, do ruído dos talheres, do lufa-lufa dos voluntários no afã de servirem, uns o pão, outros os sumos, outros ainda o arroz quentinho acabado de sair dos panelões…
Comeram e repetiram.
Seguiram-se as sobremesas, a fruta, os doces, as rabanadas, o Vinho Generoso.
Os voluntários reuniram-se no palco para cantar as janeiras. Juntou-se-lhes o Sr. Bispo. E pela sala ecoou então o som de dezenas de vozes todas bem afinadas pelo ritmo do coração:
“Oh!... Acordai!... Jesus nasceu: Cantai! Cantai! Cantai!..."
“Nasceu em Belém
Jesus O Redentor.
Chegou à Terra o Amor,
A Luz, a Luz e a Salvação…”
E assim por diante até ao fim das 11 quadras. Cantava-se no palco, cantava-se e dançava-se no salão.Via-se alegria nos seus rostos e alegria contida nos corações de cada um de nós.
São horas como estas que dão razão às nossas vidas!
Em boa hora o Sr. Pe. Rubens entendeu que a hora é de acção, arregaçou as mangas e disse:
- Se não fazem os outros fazemos nós!
Sim, não devemos estar à espera de que sejam sempre os outros a dar o primeiro passo. Basta olhar à nossa volta e ver o que é preciso e, como ele, arregaçar as mangas, e ir...
São iniciativas como esta que devem multiplicar-se!
C.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Uma história de humildade

As "Irmazinhas dos Pobres" são uma instituição fundada por Santa Joana Jugan, santificada há poucos meses, uma francesa pobre que um dia levou para sua casa uma velhinha e a deitou na sua própria cama, passando a dormir no chão. Foi aí que nasceu o primeiro Lar de Terceira Idade orientada por estas irmãs.
Dá gosto ver como tratam dos velhinhos, com que amor falam com eles e aguentam alegremente as suas manias, tiques, teimosias, demencias. Vivem de andar a calcorrear as ruas no dia a dia batendo às portas a estender a mão a pedir, e da Providência Divina - daquilo que lhes aparece.
Têm critérios de aproveitamento fantásticos e a casa é de um arranjo, de uma limpeza, e de um bom gosto que só podem ser fruto de um grande amor. Invejável. E as irmãs na sua grande pobreza de vida estão muito asseadas mostrando que a pobreza não tem a ver com porcaria ou trapalhice, como tantas vezes acontece confundirmos.
Costumo ir lá à Missa e é muito bom ficar na capela depois a rezar - um silêncio, um ambiente acolhedor, um Cristo na Cruz lindíssimo ajudam a que possa fazer a minha "caminhada de silêncio" diária ali muitas vezes.

Há pouco tempo a Irmazinha Superiora da comunidade adoeceu e foi preciso substituí-la. Não sei como é feita a escolha da nova Madre só sei que a escolha caíu... espantem-se! ... sobre a "Irmazinha" da cozinha... O "mundo" habituou-me a pensar que normalmente o/a superior/a de uma comunidade se ía preparando percorrendo um caminho de "importância" dentro da ordem, até que um dia a escolha para superior/a recairía lógicamente sobre ele/a. Mas nunca viria da cozinha... Pois aqui não foi assim. De facto, todas as irmãs têm a mesma formação, e todas a renovam periodicamente. Depois, dentro da Instituição, cada uma ocupa lugares vários: ou vai para a rua pedir de porta em porta, ou tem a seu cargo a alimentação dos velhinhos acamados, ou é a sacristã, ou acompanha a Madre Superiora nas suas tarefas, ou está encarregue das partes lúdicas, ou está destinada á cozinha... não havendo, pois, razão nenhuma para que a irmã que vejo levar o lixo ao contentor na rua não venha a ser um dia a Madre Superiora da casa.
Ontem na Missa foi a apresentação da nova Irmazinha superiora. E com que humildade, simplicidade, e alegria todas a receberam! Este acontecimento alegrou-me muito e mostrou-me como há ainda quem viva a humildade e a simplicidade de Jesus. E a certeza de que o servir é que dá a importância e os "galões". Foi muito bom viver estas horas de fim de ano com as Irmazinhas dos Pobres.
Teresa Olazabal

sábado, 26 de dezembro de 2009


No meio da azáfama característica desta quadra, e com o senão de termos interrompido esses afazeres por causa imprevista, deixámos passar o dia de Natal sem que aqui o tivéssemos lembrado...
O Natal deve ser todos os dias, costuma ouvir-se. É verdade, mas embora o afirmemos sempre também sempre depressa o esquecemos...
De qualquer modo, e para que conste, desejamos a todos UM MUITO SANTO NATAL, e que o Deus-Menino permaneça e cresça sempre cada vez mais nos nossos corações.
E aproveitamos para desejar que o Ano de 2010, que brevemente se vai iniciar, preencha os desejos de cada um quanto à sua vida particular, e a todos traga a tão ansiada PAZ, Saúde, Pão, FELICIDADE!...
São os votos de franjas sociais.
C.

INÊS...

"Esta manhã (24/12) fui ao enterro da Inês às 11h em Vilar de Andorinho. Lindo. Já ontem à noite quando fui à capela mortuária com a Cuca e a Manela rezar um terço tive ocasião de perceber "aquele" sorriso tão misterioso nos olhos fechados dela. Foi um consolo.
Hoje houve uma cerimónia muito bonita - com a celebração da Palavra, uma homilia e a distribuição da Comunhão na Capela Matriz.
A Manela leu as leituras tão bonitas do Natal: "O povo que andava nas trevas viu uma grande luz. Para aqueles que habitavam nas sombras da morte uma luz começou a brilhar", e o Salvador - de que ela tanto gostava no que era correspondida, leu a oração dos fiéis pedindo "pelas famílias que nesta noite não têm casa, nem pão, nem amor...". Tudo girava à volta da vida da nossa querida Inês que, com a fotografia da entrega da caixa dos sonhos na Missa de Natal da Trindade ao lado dela no caixão, continuava a sorrir como se nos quisesse sossegar e dizer: "acabou-se a luta, estou em paz, mas... atenção! Continuo convosco".
O diácono que presidiu falou com uma sabedoria muito grande explicando que há filhos que estão mais perto e outros mais longe da família e da casa mas que nunca saem verdadeiramente dos corações dos seus pais. E se é assim no coração dos pais da terra, muito mais o é no coração do Pai do Céu - n'ELE nunca deixa de caber um filho. São nove irmãos e uma mãe de alguma idade.
Foram buscá-la ao Instituto de Medicina Legal logo que souberam que tinha morrido e levaram-na de volta à terra donde nasceu, enterraram-na com muita dignidade, e foi de lá que partiu para a sua definitiva morada. EM PAZ.Vai-nos custar esquecê-la... aquele jeito atolambado de ser, de se rir, aqueles passos gigantescos capazes de ultrapassar o tempo, aquele sorriso malandro e terno, os abaços sem fim... e, um segredo: a boneca...
Um dia contou-nos que foi mãe há perto de 7 anos. Entregou a filha ao médico que a assistiu no parto quando este lhe mostrou a evidência - que ela não teria nunca capacidades de educar uma criança no coreto do Jardim da Cordoaria. E era com uma boneca, a que vivia agarrada toda a noite, que ela compensava a dor e as saudades que tinha da Sofia.
A Cuca andou como louca de um lado para o outro nos sítios que sabemos terem sido os últimos momentos dela, à procura da boneca para hoje lha entregar. Em vão. Mas não importa porque agora, do Céu onde andará de um lado para o outro aos encontrões a tudo e a todos, ela pode olhar e gozar bem de perto a sua menina.Descansa em paz, Inês!"
(Texto da Teresa Olazabal)
Da minha parte quero-te dizer que não sabia nem imaginava que no passado dia 14, na Trindade, te estavas a despedir quando, à socapa, me vieste dar "aquele" abraço e me pespegaste dois sonoros beijos na face.
Ao pensar nisso sinto como que uma dívida para contigo: a de nunca te esquecer, e, especialmente, não deixar de rezar por ti. É o que vou procurar fazer. Que o que te faltou em vida em comodidades, atenção e carinho, te sobeje agora no Céu em Graça e Felicidade Eterna. E lembra-te também sempre de nós junto do ETERNO DEUS!

PNAM

Carlos

terça-feira, 22 de dezembro de 2009


"...A arma dos fortes foi destruida e os fracos revestidos de força.Os que viviam na abundancia andam em busca de pão e os que tinham fome foram saciados..."
(Do Salmo da Missa de hoje, 1Sm2, 1.4-5.6-7)
"A "nossa" Inês foi ontem para o Céu.
Dormindo na rua durante 25 anos, foi recolhida e reabilitada pelo nosso grupo.
Não sabia o que era uma cama.
Mas teve uma recaída há 15 dias.
Voltou para a rua e para o inferno da vida anterior.
Presa durante a noite, morreu não sabemos porquê.
No Ofertório da Missa de Natal fez questão de levar a "caixa dos sonhos". E fê-lo com uma convicção e uma dignidade total.
Agarrada com unhas e dentes à caixa, entregou no altar os seus sonhos: "- o de um dia poder viver dignamente: com emprego, casa e familia; - o de um dia poder ser olhada com respeito por todas as pessoas; - o de um dia poder ser livre, sem dependencias e sem precisar de estender a mão.

Como dizia há pouco uma amiga, agora vai realizá-los todos. Porque na verdade não era a "nossa" Inês mas sim a Inês "de Jesus" porque "a mais pequenina dos pequeninos" de tão mal amada, de tão maltratada, de tão despezada...

Inconsoláveis, acreditamos nas palavras deste Salmo:
"os que tinham fome foram saciados".
A Inês tinha uma fome insaciável de amor. E umas gargalhadas de menina. Abraçava toda a gente com a força de quem acredita que isso lhe minimizaria o sofrimento provocado pelas tantas feridas que tinha no coração e de que não se conseguia livrar...
"...Os fracos foram revestidos de força e os que tinham fome foram saciados...!"

(Teresa Olazabal)

Comentário:

Inês:
Quem disse que a Missa de Natal a 14 de Dezembro era prematura?
Pois foi a tua Missa de Natal!... Celebraste também este ano o teu Natal, o Natal de Jesus...
Tal como escreveu a amiga Teresa, abraçavas toda a gente, querias viver num momento o que não te era permitido usufruir ao longo da vida. Mas... naquele abraço que, por puro impulso teu, me vieste dar de surpresa na Igreja da Trindade, vejo agora o teu abraço de despedida!...
A vida foi muito madrasta para ti, mas que tudo quanto te deram em sofrimento te seja agora dado no Céu em recompensa por toda a eternidade!...
Elevamos ao Céu as nossas orações mas estou certo de que não precisarás delas, e, por isso te peço: Pede a Deus por nós!...
P.N.A.M.
Carlos

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Missa de Natal dos Sem-abrigo




"Mais do que comentários, deixo aqui os tres pontos altos da Missa:
Ofertório, Pai Nosso, Poema da Margarida
O OFERTÓRIO
Foram oferecidos ao Senhor presentes - dos Amigos da Rua e do nosso grupo - que eram mostrados ao povo de Deus ali reunido, enquanto a Joana lia pausadamente o sentido de cada entrega:
A Laura e o João, um casal da rua, aproximam-se do altar com uma caixa de cartão dobrada e um cobertor:
"Oferecemos-Te Senhor a nossa cama muitas vezes o único conforto na solidão e no frio das noites compridas de inverno. Tu, que também nasceste no desconforto da manjedoura, acolhe-nos e aquece os nossos corações com o Teu Amor".
A Sónia, mãe de três filhos, no desemprego, bem como o marido, aproxima-se do altar com um pão seco:
"Oferecemos-Te Senhor este pão, sinal da nossa carência e da nossa fome: fome de alimentos, fome de carinho, fome de companhia. Tu que mataste a fome aos famintos, sê o Pão, o alimento, e o amor das nossas vidas".
A Marta, do nosso grupo, aproxima-se do altar com um recipiente cheio de cacos, de várias cores:
Oferecemos-Te Senhor estes cacos, sinal das nossas vidas tantas vezes estragadas, fúteis, partidas e sem sentido. Dá-nos, Senhor, a Tua ajuda e refaz as nossas esperanças e alegrias tantas vezes quebradas e perdidas.
A Joana, do nosso grupo, aproxima-se do altar com um "saco-ternura":
Oferecemos-Te, Senhor, este saco de plástico a que chamamos "saco-ternura" onde todos os meses colocamos não só os alimentos para os Amigos da Rua, mas também o nosso amor, a nossa atenção, a nossa companhia e a nossa alegria em podermos partilhar com eles as nossas vidas. E nunca permitas que desanimemos de servir-Te nestes irmãos e irmãs.
A Inês, sem-abrigo, leva uma caixa "doirada" com tres papeis escritos:
Oferecemos-Te, Senhor, estes nossos sonhos: - de um dia podermos viver dignamente com emprego, casa e familia; - o de um dia podermos ser olhados com respeito por todas as pessoas; - o de um dia podermos ser livres, sem dependências e sem percisarmos que estender a mão para satisfazer as nossas necessidades essenciais. Senhor, alimenta e anima cada vez mais estes nossos sonhos.
A Rosa e o Armando, dois Amigos da Rua, aproximam-se do altar com as hóstias e as galhetas:
Oferecemos-Te, Senhor, o pão e o vinho que em breve se irão transformar em Jesus, o Alimento que vem do Céu. Com este pão e este vinho vão as nossas dores, trabalhos e solidões. Aceita-os, Senhor.
O PAI NOSSO

O Senhor Padre Fabião convidou-nos a dar as mãos de maneira a que não houvesse uma mão desgarrada, solta, sozinha. E a Igreja transformou-se como que por magia num imenso cordão que incluía o altar e ía até ao último banco. Pediu-nos um instante de silêncio que de tão calado pesou fundo nos corações e rezámos emocionadamente não só o Pai Nosso como as orações seguintes numa comunhão imensa, incrível.
O POEMA DA MARGARIDA:

O Poema da Margarida... é "simplesmente" este... que a Rosarinho nos fez chegar numa leitura feita directamente do coração:
"Irmão meu, filho do mesmo DeusQue nos criou num milagre de amorQuero hoje entregar-lhe as tuas mágoasEstar contigo, firme, a implorar com fervor:Que me livre do egoísmo que me cega,Das comodidades que tenho sem merecer,De não te dar a mão, peregrino das ruas,De não ser uma esperança para o teu viver.Quero ajudar-te , mas…sozinha não consigoDar-te pão, carinho, dar-te abrigo,Ser luz na tua noite, maná das tuas fomesQue por tantas que são, nem sei delas os nomes…Irmão meu, alegra-te, há ALGUÉM poderosoQue o nosso impossível pode realizarTe olha e te ampara com amor de PaiE, por amor nasceu para nos salvar.O Menino do Presépio é o mesmo DeusQue continua hoje a olhar-te com amorIrmão meu, testemunha de dolorosas horas,De noites gélidas, sem pão e sem calor.Levanta-te do chão e olha o Céu aberto!Olha Jesus a dar-te a mão e num abraçoElevar-te da terra ao infinito espaço!Para te fazer sentir toda a consolação,Toda a misericórdia, toda a redençãoO seu imenso amor, o seu total perdãoSua entrega total, sem nenhuma condição.Dá-lhe a tua mão irmão e sente o seu abraço,Agarra-a com força, e vais ver que és capazDe mudar pouco a pouco a tua vida,Sentir no coração o bálsamo da Sua Paz."
Margarida Martins Alves, Natal 2009
Depois, "O SOCIAL" cá fóra:
"Sacos-ternura"; presentes para homens, senhoras e crianças; perú "acompanhado"; bolo rei, chocolate quente, sumos, café e Vinho do Porto. Para além da generosidade de todos, não poderia deixar de agradecer à Zé Pinho que forneceu o perú e ao Luis Vieira de Castro que ofereceu o Bolo Rei.
O Largo da Trindade era um imenso sorriso... Os olhares eram estrelas cheias de Luz... As palavras que mais nos chegavam era um "obrigada, e que o Senhor vos acrescente".
É pois com estas mesmas palavras que termino esta "notícia":
"OBRIGADA, E QUE O SENHOR VOS ACRESCENTE!"
AMEN - ALELUIA"

(Relatado por Teresa Olazabal)

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

O acto e a intenção

Há uns tempos que, fruto de meditação e da observação de procedimentos, congeminei escrever sobre este assunto. Não é matéria nova, longe disso, mas, às vezes, certas atitudes podem gerar equívocos se não estivermos sabiamente avisados, e se não tivermos o suficiente discernimento, e é sempre bom saber separar as águas.
Este tema tem um duplo interesse: material e moral.
Na ordem material, as leis das nações, prevendo a ocorrência de situações gravemente condenáveis, sujeitam a punição dos comportamentos humanos à verificação do facto (o "acto") e do intuito (o "animus"). Daí o fazer-se depender de procedimento "doloso" a possibilidade de punição de certos comportamentos tipificados como crime ou faltas no âmbito administrativo sancionadas de outra forma. Só em casos especiais previamente identificados se poderá punir por simples negligência (quando se atribui ao sujeito um especial dever de cuidado).
Por isso, no âmbito civil, concorrem para a punição dos comportamentos individuais o acto e a intenção.
Também segundo a Lei de Deus, que é a que verdadeiramente comanda o Homem no seu todo, por maioria de razão, se exige que, para existir comportamento punível na ordem espiritual haja perfeito concurso desses dois elementos: do acto e da intenção.
Reza o Catecismo da Igreja Católica que, para que se verifique falta grave a qualquer dos preceitos divinos, é indispensável que estejam reunidos quatro requisitos: ser matéria grave, haver pleno conhecimento, agir com intenção e a prática do acto.
Do Catecismo da Igreja Católica:
"§1858 - A matéria grave é precisada pelos Dez mandamentos".
"§1859 - O pecado mortal requer pleno conhecimento e pleno consentimento (que abrange a intenção). Pressupõe o conhecimento do caráter pecaminoso do ato, de sua oposição à lei de Deus. Envolve também um consentimento suficientemente deliberado para ser uma escolha pessoal. A ignorância afetada e o endurecimento do coração não diminuem, antes aumentam, o carácter voluntário do pecado."
Mas embora todos os actos humanos presuponham a existência de uma intenção, poucos são os que estão sujeitos a sancionamento.
O mesmo não acontece no plano espiritual pois todos, mas mesmo TODOS os nossos actos estão naturalmente submetidos à Justiça Divina, que um dia será exercida sobre nós.
É esta a matéria que nos interessa para sabermos qual o procedimento que agrada a Deus, e qual o julgamento que Deus fará dos nossos actos.
Os Evangelhos estão cheios de exemplos de procedimentos em que a intenção e o acto se não adequam. Seria exaustivo enumerá-los todos, mas poderemos, quase que aleatoriamente, indicar alguns mais representativos.
Abrangendo, como que em definição, a oposição entre o acto e a intenção, S. Mateus relata as palavras de Jesus em 15,8: Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim." Idem S. Marcos, 7, 6.
Mas uma das descrições que melhor retrata a oposição e a adequação entre a intenção e o acto é a constante em Mt. 21, 28-30 sobre o procedimento dos dois filhos convidados para ir trabalhar na vinha. "Qual dos dois fez a vontade do Pai?" - perguntou Jesus.
E em S. Marcos, 2, 23-27, surge com clareza a razão de não ser condenável o facto de os discípulos se terem servido das espigas ao Sábado, e de David ter distribuído os pães da proposição. A intenção dos primeiros não era a de desprezar a observação do Sábado nem do segundo as leis do Templo.
E como julgar à luz dos procedimentos dos homens a expulsão dos vendilhões do Templo? (S. Marcos, 11, 15-18.). A motivação está na afirmação de que "A Minha casa será chamada casa de oração para todos os povos", "mas vós fizestes dela um covil de ladrões.". A desordem ocasionada aparece justificada pelo fim, que lhe é superior: preservar a casa da oração.
Contudo, uma das passagens em que a intenção se mostra com mais força, é em S. Marcos, 13, 41-44, relativamente ao óbolo da viúva pobre. As duas pequenas moedas têm mais peso na apreciação divina que as chorudas esmolas dos ricos, porque a intenção da viúva foi dar tudo quanto tinha.
(A continuar)

Quem conduz este combóio é o meu Pai!



ERA UMA VEZ UM RAPAZINHO DE APROXIMADAMENTE 5 ANOS, QUE CORRIA DUM LADO PARA O OUTRO NUM COMBOIO QUE CIRCULAVA RAPIDAMENTE ENTRE O PORTO E LISBOA. UM SENHOR, IMPRESSIONADO COM O QUE LHE PODIA ACONTECER NAS CURVAS, TRAVAGENS E ACELERADELAS DO ANDAMENTO DO COMBOIO, CHAMOU-O E DISSE-LHE:
"- OLHA, MEU MENINO, TENS QUE TER MUITO CUIDADO PORQUE PODES-TE MAGOAR! MAIS VALIA FICARES SENTADO EM VEZ DE ANDARES NESSAS CORRERIAS, SENÃO AINDA TE MAGOAS!"
"- NÃO, NÃO! NÃO ME MAGOO NÃO!"
"- E COMO SABES QUE NÃO TE MAGOAS?"
"- É QUE QUEM VAI A CONDUZIR ESTE COMBOIO É O MEU PAI!"
"QUEM VAI A CONDUZIR ESTE COMBOIO É OMEU PAI!"
Toda a manhã choveu torrencialmente e anunciavam chuva para a noite. De Coimbra recebemos uma mensagem preocupante: a pessoa que trazia os "mimos" que compunham aquele habitual GRANDE cabaz não aparecia, não estava contactável, não se se sabia se as coisas iriam chegar... A história - verdadeira - do menino do comboio que me tinha sido contada na véspera não me largava: "quem vai a conduzir este comboio é o meu Pai!"...
A aparelhagem de som que tínhamos tido a necessidade de arranjar à ultima da hora porque a outra não estava a resultar e era preciso que a oração fosse ouvida por todos e também era preciso dar mais "voz" às 3 violas que agora fazem parte do côro, este novo côro que se "vira e revira" para dar mais força à oração, mostrava-se avessa a dar o som certo, e eu pensava: "quem vai a conduzir este comboio é o meu Pai!"
Recebi uma mensagem a prevenir que a "x" estava bêbada e ía estragar a noite e eu teimava em acreditar: "quem vai a conduzir este comboio é o meu Pai"...
Acabada a oração com o tema: "Preparação para o Nascimento", que foi encerrada por uma música cheia de força e de alegria, uma multidão esfomeada cercou-nos ansiosa. Mas as travessas servidas à volta por amigos cheios de alegria e amor estavam repletas e chegou para todos. As caras foram-se alegrando, e apesar de algumas cenas de violência (que infelizmente vão sendo cada vez mais comuns) a noite acabou em paz. O ar estava morno, a chuva foi chover para outra cidade, e a "x" despediu-se de nós com um lindo fado...
Não há dúvida de que ***QUEM VAI A CONDUZIR ESTE COMBOIO É O MEU PAI***

Relato da noite da última Quarta-Feira na Trindade, de Teresa Olazabal

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Experiências da rua

Por onde começar?
Decidimos fazer um relato mais alargado recuando ao mês anterior. É que a acção não é instantânea mas se alonga no tempo, por dias, semanas, meses... e, às vezes, até anos!
A persistência é um dom a não esquecer. Só com Fé e teimosia se conseguem mover montanhas. Ainda que sejam as montanhas artificialmente criadas pelo próprio Homem em torno de si próprio, ou em si mesmo.
No mês transacto continuámos o acompanhamento seleccionado de alguns amigos na tentativa de os levar a mudar o rumo das suas vidas. Privilegiámos um casal novo, na casa dos trinta. Fomos ao seu encontro no fim do mês e tivemos a grata surpresa de sermos por eles recebidos com alegria mesmo esfusiante, desejosos que estavam de nos transmitir a certeza de que estavam mesmo, não decididos, mas A MUDAR!...
Apresentaram-nos os responsáveis da associação que os acompanha com quem pudemos conversar, e certificar-nos de que estavam no rumo certo.
Anteriormente tinham-nos apresentado um pedido simples: eram casados pela Igreja e queriam que todos o soubessem; para isso gostavam de ter alianças mas alianças de verdade, ainda que fossem simples alianças de latão!
Registámos o pedido, pusemo-nos em campo, descobrimos a Paróquia onde tinham casado, obtivemos a cópia do Assento de Casamento, e encomendámos umas alianças de prata dourada gravadas com a data e o nome de cada um.
O aniversário era a 31 de Outubro. Nesse dia, à noite, fizemos-lhes a surpresa: oferecemos-lhes as alianças, um farnel adequado, e o Assento de Casamento! Quando lho demos, disse a senhora:
- Ai!... Era mesmo isso que lhes íamos pedir!
Não foi necessário pedir. Adivinhámos o desejo e foi com enorme gosto que lhes demos essa alegria!
A saída de Quarta-Feira teve de ser adiada para Quinta, ontem, por causa dos festejos do S. Martinho, nosso Padroeiro.
Feitas algumas compras para a distribuição da noite, empurrando o carrinho quem me aparece à frente? Ela mesma em pessoa, fora do círculo que lhe era habitual, sozinha! Ficámos a cavaquear durante uma boa meia-hora sobre o tratamento a que se submeteram, sobre a sua decisão, sobre os motivos porque os tratamentos anteriores não tinham resultado, etc., etc., etc.
- Sabe?, não sei porquê gosto mesmo de conversar consigo... As outras pessoas... não sei, não é a mesma coisa! Tem um modo de conversar diferente...
Rservei duas medalhas Milagrosos para lhes entregar à noite, mas não apareceram. Nessa tarde tínha-me dito:
- Sabe? às vezes até já não vamos aos carros; não nos sentimos bem e preferimos ficar no nosso quartinho.
Devem, por isso, ter ficado no seu quartinho. É preciso rezar por eles, empurrá-los com a Graça de Deus!
De resto a noite, com 4 na equipa, foi um pouco diferente. Íamos preparados com 40 sacos para o Aleixo, e mais cerca de 60 para a cidade, e fruta, leite com chocolate e sandes avulso.
À última hora, porque eram ainda 21,30 horas, pensámos alterar a volta começando pelo Aleixo. Deste modo tínhamos a certeza de que todos quantos nos procurassem receberiam o seu quinhão. Só que os sacos a eles destinados já estavam acondicionados no fundo da bagageira. Mas não era impedimento: poderiam tirar-se por dentro, rebatendo o banco.
A solução não demonstrou ser a melhor porque a nossa acompanhante de serviço, que tinha trazido algumas roupas, se viu atrapalhada querendo entregar uma e outra coisa! A aglomeração era grande, com fome e no stress habitual quase que exigiam que lhes dessem os sacos que estavam ali mesmo à mostra, mas que não eram tão completos como os que lhes estavam reservados. Entre sacos, roupa e o sumo, que ia sendo distribuído à medida que chegavam, ultrapassou-se a balbúrdia que não permitiu nenhuma aproximação individual.
Não pôde aqui ser semeada a Palavra que saíra na nossa oração: 1ª. Coríntios, 1, 23 - Respeito pelos outros.
Sem semearmos nos seus corações, retivemos, no entanto, o recado: "quer comais, quer bebais, quer façais qualquer outra coisa, fazei tudo para glória da Deus.".
E para maior glória e honra de Deus ali estávamos, cientes de que, por nós, nada conseguimos resolver, e, por isso, nos entregamos e confiamos em Deus que, ELE sim, tudo pode.
Indo à cidade, andámos positivamente a tropeçar em ajudas: o Colégio do Rosário, os Samaritanos - ambos habituais - e mais três ou quatro grupos novos de que não conhecemos o nome nem a história. A Caridade não tem dono, é certo, mas viemos para casa a pensar se não será altura de dar lugar aos que acabam de chegar, possivelmente com mais meios e capacidade, e de optar por outro tipo de abordagem.
"Tudo é permitido mas nem tudo é conveniente. Ninguém procure o seu próprio interesse mas o dos outros." - dizia a leitura. E qual é o interesse dos outros neste caso?
"Fazei como eu, que me esforço para agradar a todos em tudo, ... a fim de que eles sejam salvos."
Terminámos a nossa noite agradecendo e pedindo o devido discernimento para que, entre o que é permitido descubramos o que é também conveniente na abordagem dos carenciados de quem nos aproximamos.
A Paz de Deus fique nos corações de todos quantos lerem estes curtos relatos, que estão a ter leitores de norte a sul do Brasil, na Espanha, Holanda, em Sacramento dos Estados Unidos da América do Norte, e, claro, em Portugal. Que a semente que queremos deixar no coração de quem encontrarmos no nosso caminho germine e cresça também nos corações dos nossos leitores, a quem saudamos na fraternidade de Jesus.
Avé Maria!
Novembro de 2009
C.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Outra saída - Outubro 2009

Foi no dia 8 que, por troca e impossibilidade de o fazer na Quarta-Feira, saímos à rua este mês. Isso trouxe-nos alguma complicação porque nem todos ficaram avisados como era conveniente e uma amiga - a M. Elvira - surpreendeu-me na noite de Quarta- Feira com uma chamada em que perguntava onde estávamos e se não íamos à rua naquele dia. Percebi a sua confusão e desilusão porque estava "lá" com os seus mimos, sozinha!
- Preparei estas coisas para eles e não as levo para casa! Se não vêm vou eu levá-las onde puder.
E foi assim que a M. Elvira saíu, acompanhada do marido, pelas ruas do Porto em início antecipado da saída do dia seguinte!...
Acautelada, lá foi informando que, embora sozinha, era a nossa representante naquela noite! Entregou tudo na Rua Júlio Dinis.
No dia seguinte faltou-nos o contributo da Nobreza, que já tinha destino para as suas sobras do dia, e a companhia da M. Elvira, de quem já tínhamos saudades, e nos fazia falta.
Mas, mesmo com essas limitações tudo acabou por correr bem. Frustrada no seu desejo de entregar no Aleixo as descomunais sandes de broa recheada com enchidos preparadas com esmero e carinho, a M. de Lurdes viu ir parar o resultado de todo o seu trabalho às mãos dos que foram aparecendo na Câmara, na Batalha, no Carregal, no H. de Stº. António...
Para sua consolação ainda fomos ao Aleixo com meia dúzia das suas sandes. Por ironia, bastaram! Foram cinco ou seis os que apareceram.
Foi uma noite de encontros. Apareceram muitos de quem não tínhamos notícia e que prourávamos: O Fernando (da Avenida), que fomos encontrar aboletado debaixo das escadas que dão acesso aos sanitários de S. Bento, o António (que já está outra vez num quartinho na R. do Rosário, e que apareceu limpo e asseado), o Francisco (que de alegre até tropeçava nas palavras e nos deu dois fortes abraços).
Junto ao Stº. António reapareceu o Amadeu. Ao lado sussurrou outro:
- Foi meu companheiro na prisão. Acabou de sair da prisão.
- ?!...
- Estive 13 anos em Vale de Judeus. Não nos dão trabalho, temos de nos safar!
Perante essa confissão não provocada, optei por lhe dar um conselho:
- Antes de fazer qualquer coisa pare e pense se isso irá prejudicar alguém. Quando abdicamos de alguma coisa em favor dos outros sentimo-nos mais felizes do que se satisfizermos os nossos desejos.
Lá seguiram ambos em direcção indefinida, na rua e na vida. Tentando safar-se!

Casalinho

Foi no dia 28 de Outubro. À hora habitual reuniaram-se muitos apoiantes dos sem-abrigo da cidade do Porto na escadaria da igreja da SSma. Trindade, em oração com os seus amigos da rua. Numa mistura concertada ao longo da extensa escadaria rezou-se, cantou-se, ouviu-se. Ordeiramente, setados, todos receberam o lanche que lhes era destinado, a que seguiu a partilha de sandes, acepipes, bolos...
Nessa altura fui abordado e chamado à parte pela Sofia que, meio intimidada com o que pretendia expor, começou:
- Sabe... eu e o meu marido amamo-nos muito. Já iniciámos o processo para a desintoxicação e já estamos na metadona. Mas há uma coisa que nos faz muita falta. Em tempos, numa hora má, de desespero, vimo-nos obrigados a vender as nossas alianças... sabe?, a necessidade foi mais forte... Agora andamos com estas que o meu marido arranjou mas não são dignas - e mostrou umas engendradas a partir de fio de arame preto! Nós gostaríamos que as pessoas soubessem que somos casados mesmo. Não nos importamos que sejam de prata ou até de latão! Vamos fazer anos de casados e umas alianças a sério é do que precisávamos.
Ambos com formação superior, tiveram vida digna, emprego, casa, carro. Agora estão reduzidos à sobrevivência nas condições a que a droga os submeteu. Nossos conhecidos de vários encontros anteriores, com eles estabelecemos uma especial relação e sentimos que se sentem amparados pela atenção que lhes dedicamos. Variadas vezes insistimos para que se decidissem a iniciar a reabilitação e respondiam-nos sistematicamente que sim mas ambos em conjunto. Não admitiam ser separados. Por isso rejeitavam apoios das famílias que pretendiam separá-los para esse efeito. Temendo isso preferem manter-se entregues a si próprios, à mercê da caridade e da (pouca) sorte, sem eido onde viver.
- Lá no sítio onde pernoitamos a Sofia é a única mulher mas todos nos respeitam porque sabem que somos um casal.
Tomámos conta dos desejos da S. e do F.. Fazem cinco anos de casados no próximo dia 31 deste mês e vamos, com o contributo de quem quiser, tentar cumprir o seu desejo na reunião que terá lugar no mesmo local na noite do próximo dia 28. Será um momento lindo que lhes trará muita alegria e os incentivará a recuperar a alegria e a Esperança se não perdidas, muito abaladas.
E vamos rezar para que a sua recuperação seja efectiva.
Carlos

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Setembro 2009

Vindimas



Este ano o Verão tem-se mantido connosco. Os dias continuam com temperaturas bastante acima do que é costume nesta época. É tempo de vindimas. Na rua ainda se não sentiram os rigores da aproximação do frio, ainda se não reclama roupa de agasalho. Por isso não insistimos em levar roupa a não ser para uma necessidade evidente.

Preparámos o costume, insistindo nas sandes, no sumo natural a copo, na fruta e leite com chocolate. O resto que nos chega das confeitarias serve para compor a ementa.

Há gente ausente, há gente com problemas de vária ordem que não pode vir. Mas há sempre alguém com possibilidade de manter viva a chama da caridade e que aparece, que assegura a recolha dos donativos em géneros e prepara o seu contributo.

Éramos três mas chegámos para tudo. Não preparámos antecipadamente os sacos decidindo servir um-a-um à medida que fossem chegando. Utilizámos até um sistema novo: entregávamos a cada um que ia chegando um saco vazio que íamos enchendo enquanto ele o segurava. Entretanto ia sendo servido o sumo, íamos falando...

O primeiro que nos apareceu era um Russo, o Victor, que nem esperou que saíssemos do local de partida. Mas esperou que terminássemos a oração e a leitura de 1ª. Coríntios, 15, 1-11.

Depois, em J. Dinis, a Tatiana, a Diana e a Liana pediram-nos cadernos para a escola. Levaram sacos, levaram beijinhos e conselhos.

Na Câmara, reencontrámos a Sofia que nos disse que ainda não tinha contactado os Médicos do Mundo. Na vez anterior tínha-nos prometido que o faria para iniciar com o marido o processo de desintoxicação. Temos de ver se encontramos solução para eles.

Morais..., Francisco. Tem aparecido com bem melhor aspecto. Remoçou. Cabelo e barba aparados.

- Quem lhe cortou a barba e o cabelo? - perguntei.

- Fui eu!

- Como?

- Pus um espelho assim, e cortei!

Estava bem aparado. Gostámos do seu aspecto e gostaríamos que se mantivesse, pelo menos, sempre assim, se não for possível mudar para melhor.

Ficou a promessa da amiga Maria de Lurdes de lhe trazer arroz quentinho...

Descíamos a Avenida quando deparámos com um vulto estirado no chão da placa central. Demos a volta, parámos o carro e fomos ver: ergueu-se com muita dificuldade, cambaleando. O peso do álcool era demais para se poder suster. Barba grisalha, cabelo branco, parecia ter setenta anos. Mas não, disse-nos ter vindo de Viana e ter apenas 47 anos!... Encostado ao Rendimento de Reinserção, nega-se a trabalhar, a colaborar com a família, arruma carros e, em 20 minutos - disse-nos ele - fez mais de três Euros. Três Euros que tiveram como destino uns tantos copos...

Falámos longamente. Com roupa em Gaia estava ali em mangas de camisa, ao relento, porque não tinha ido a horas buscar as suas coisas. Dormir, dormiria ali, não sabendo onde seria o ali...

Ainda pusemos a hipótese de contactar o 112 mas, porque o seu estado não nos pareceu justificativo decidimos não o fazer.

Deixámo-lo melhor acomodado num banco do jardim, copo de sumo na mão para anular parte do seu mal, farnel ao lado para matar a fome, e seguimos. Batalha. Mais gente, mais fome, mais miséria.
Ultrapassámos o Carregal e seguimos directamente ao Aleixo. Apenas quatro ou cinco utentes. Ao fundo o carro da Polícia. Pois é: segurança e vigilância permanente!

Sabendo que o centro das operações fora desviado para Pinheiro Torres para lá seguimos. A romaria estava ali! O corropio parecia não mais terminar. Mas terminou com o último saco e com o último copo de sumo! Nem mais!

A nossa oração foi rezada desta vez à porta da amiga M. Lurdes, em Leça. Víramos muita miséria moral, física e material que nos incomodaram deveras. A sensação de impotência para resolver os problemas de cada um com que deparáramos não obstava a que sentíssemos uma satisfação especial, talvez por termos a noção do dever cumprido na medida das nossas possibilidades. Tudo isso agradecemos a Deus, e agradecemos a fartura de que gozamos, a saúde e a família que temos. E pedimos por todos eles, pelos seus anseios e necessidades.

Ao entrar em casa deparei com um desdobrável de campanha política intitulado: "Porto: Um compromisso".

Li a correr e deparei com um capítulo dedicado à segurança onde está escrito:

"Como estaria o Porto, se, em 2002, não tivéssemos invertido a política que estava a ser seguida ou se agora cedêssemos às pressões da oposição para não demolir o bairro do Aleixo?"

E, mais adiante:

"...um combate sério à toxicodependência são exemplos concretos que o País nunca pode esquecer."

Acabavamos de chegar da rua, do Aleixo, do Pinheiro Torres...

Enquanto o Bairro do Aleixo estava deserto por ter a polícia à porta, o Bairro Pinheiro Torres fervilhava de decrépitos frequentadores dos obscuros recantos onde a droga é oferecida e consumida a céu aberto!...

Duas perguntas se colocam ao autarca da nossa cidade:

Quando decide também demolir o Pinheiro Torres, o Bairro da Sé, o João de Deus?
E será que é a mudar de sítio que se combate a toxicodependência?

Tenho pena de quem lê tal propaganda sem ter possibilidade de aferir da sua verdade!

Que Deus nos guarde, guarde o Porto, e guarde Portugal!


C.






quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Em tempo de férias

Pois...
É de facto tempo de férias para muitos mas não para todos. Fomos ao seu encontro como de costume, ajoujados com tudo o que preparámos e conseguimos. O carro abarrotava, graças a Deus!
Quatro mensageiros, tentámos levar à rua mais uma vez uma mensagem de bem, de paz e de amor.
Em Júlio Dinis tivemos a surpresa de encontrar a Chantal em plena actividade. Deixara-nos há uns tempos e não mais soubemos dela. A semente germinou no seu coração e continua, ela, a irmã, a mãe e uma amiga, todas as Quartas-feiras a repartir o seu pão naquela rua. Foi uma alegria o reencontro. Quem não gostou foram alguns dos destinatários ao verem que não parávamos ali. Não se justificava depois de nos termos certificado que a Chantal quase que repetia o que levávamos. Por isso deixámos-lhe um garrafão de sumo e copos para completar o seu menú, e seguimos.
E seguimos pela cidade que àquela hora estava ainda cheia de transeuntes em férias, nacionais e estrangeiros.
Câmara, Francisco (voltava a estar receptivo e contente...), Batalha...
Decidimos seguir dali ao Aleixo, mas foi uma desilusão porque a polícia montou guarda àquele local e "eles" desandaram. Foi a custo que encontrámos destinatários para grande parte da merenda.
Voltámos então às ruas, entregando aos que íamos encontrando, descemos ao Carregal, à Urgência, a Júlio Dinis...
Não encontrámos destino para algum pão e para um garrafão de sumo quase inteirinho!
No final concordámos em que não devemos traçar muitos planos porque, se estamos ao serviço de Deus, temos de confiar unicamente n'Ele. Quando não confiamos, como foi o caso, os nossos planos podem sair furados... e saíram!
Ficou-nos a lição.
Rezámos por aquele casal, jovem e crente, que encontrámos e a quem demos o contacto dos Médicos do Mundo para tratarem da sua desintoxicação. Cinco anos de casamento religioso, sem filhos, a precisar urgentemente de readquirir novo rumo.
E rezámos por todos os outros que vieram ao nosso encontro, Cristos a precisar de Cristo.
Era bom que a droga e o álcool também dessem férias a todos. E, se possível, umas férias grandes... mesmo muito grandes!...
Andámos na rua, nas ruas do Porto, em noite cálida, encontrámos muitos necessitados, e nem um só momento nos lembrámos da tal gripe A...
Saúde e Paz a todos.
C.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Novamente na rua

As baixas continuam pelos mais diversos motivos.
Quem vai prepara e reúne o que pode para que não falte. Mas... no final, há sempre alguém que não recebe a sua parte. Contingências!
A habitual pontualidade na partida foi quebrada pelo atraso de uma hora na chegada do "cabaz" de Leça. Nem tudo corre sempre como esperamos mas, como o programa não é nosso, confiamos...

Apesar desse atraso quase que nem se deu por ele no percurso a não ser pela ausência de utentes na Câmara e na Batalha. Mas os restantes que encontrámos em Júlio Dinis, no Carregal e no Aleixo compensaram bem a diferença.

Na Boavista e em Júlio Dinis havia fome. No Carregal também, mas os estômagos já estavam aconchegados pela visita dos Samaritanos e pela sopa quentinha do amigo M. Rocha, que não se cansa de "Espalhar Afectos".

Porém, a história da noite foi vivida ao lado da Trindade. Tínhamos deixado para trás o Francisco - imerso desta vez em não sei que torpor que o fazia hibernar tombado sobre a sua enxerga, e de que não saíu mau grado as tentativas que fizemos - e passávamos junto ao shopping que ali fica quando nos apercebemos de um ajuntamento num daqueles portais. Voltámos atrás, parámos e fomos ver: eram quatro em torno de um casal que se estirava num cobertor; ele de perna envolta numa extensa ligadura, descalço, e ela ao lado montando guarda. Miséria guardada pela miséria, numa leitura apressada de leigo; mas solidariedade humana numa leitura mais atenta.

Face à limitação física não esperámos que viessem ao carro e, solícitos, quisemos servi-los do que levávamos. Começámos pelos que estavam ao lado. O doente, Manuel F., com quem entretanto já tínhamos estabelecido diálogo, não nos dava atenção nenhuma e, descalço, apoiado no que restava da bengala de um guarda-chuva desfeito, pôs-se em pé, iniciou uma caminhada em direcção às escadas, insensível aos apelos dos seus amigos que não cessavam de o chamar. Atravessou depois o passeio, fez-se à rua, passou ao outro lado, e seguiu com dificuldade ao longo do Largo da Trindade. Finalmente estancou mesmo defronte da escadaria da igreja, benzeu-se calmamente, ajoelhou no primeiro degrau, e, de mãos postas começou a rezar. O quê não sabemos, mas rezava... Com igual calma e dificuldade regressou para junto de nós, comovido. Não inquirimos pormenores dos motivos do seu insólito e devoto procedimento, e foi entre lágrimas e uma oração conjuntamente rezada por si que nos disse:
- Amanhã vou ser operado à perna no Hospital de Santo António!
E lá nos contou a sua infelicidade. Rezámos com ele, prometemos mais oração encorajando-o com a protecção de Deus aos que n'Ele confiam!

Ficámos a pensar: nós que pensamos levar à rua um pouco de Fé e de oração acabávamos de receber uma lição de Fé e de oração! Era digna de um quadro a cena que presenciámos às 11 horas da noite. É cena que fica gravada e não mais esqueceremos...

Do M. F. só conseguimos saber depois que deu entrada no Hospital mas que não resistiu a sair de lá sem operação! Razões? As que regem esta gente que não aceita peias ao livre uso da sua liberdade mesmo com prejuízo dos valores que nós estabelecemos como prioritários. Para ele a saúde pode esperar, a liberdade é que não! Que importa que os ossos cicatrizem fora do sítio se continua a ser senhor da sua escolha?

Estranho mundo este dos nómadas das nossas cidades!

Temos rezado pelo M. F., para que regresse e se deixe tratar. E que se deixem tratar os que fazem da sua vida uma roda viva de vai-e-vem a caminho do Aleixo...

C.

domingo, 14 de junho de 2009

Na rua em Junho de 2009

Uma partida informática impediu a publicação oportuna da notícia da última saída, mas cá estamos novamente dando conta do que de mais relevante encontrámos.

Dia 10 foi dia de festa mas isso não se notou na rua. Já houve tempo em que todo o País se sentia em festa mas agora parece que tudo se resume apenas ao palco das comemorações. A miséria não se limita apenas à fome e à carência de habitação ou de habitação condigna, mas a que mais grassa por aí é a moral, e esta toca a todos, mesmo aos bem instalados na vida e, até, no poder.

Para nós era dia de saída, de ir mais uma vez ao encontro daqueles que já não vão em "políticas", e que só costumam saborear as festas dos outros, sejam as do S. João ou o as do futebol. Aproveitam de uma e de outra as migalhas que lhes vão chegando...

Para nós, as dificuldades começaram a surgir bem cedo: um, dois, três dos habituais companheiros estavam impedidos de poderem ir neste dia. Nada nos demove. Confiamos e Deus fará o resto.

Como habitualmente, cada qual preparou as suas coisas, mas não contámos desta vez com a preparação prévia dos sacos para o Aleixo, por isso, regressámos à primeira forma de ir andando e servindo... e não é que deu certinho?

Fizemos a nossa oração como de costume e lá seguimos. Os utentes depressa começaram a surgir mas, como vinham assim iam, a correr...

Desta vez encontrámos o Francisco conversador, ria por tudo e por nada. Quase que hilariante, não era o mesmo Francisco que se entretém sistematicamente a fazer quadradinhos atrás de quadradinhos numa repetição incrível de paciência e monotonia. Foi a primeira nota interessante da noite.

Mais adiante, o carrinho da Associação "Espalhar Afectos", com afectos distribuía a habitual sopa e não só. Coração grande e raro o deste amigo que, sozinho, todos os dias marca presença nas ruas do Porto para encher estômagos e aquecer corações.

Mas, a marca do dia, como quase sempre, ficou no Aleixo. Muitos vão e vêm e, entre eles há sempre alguém que pára! E pára o tempo de que precisa para fazer o que é raro neles: conversar!

Desta vez foi o J.C.: alto, bem constituído nos seus trinta e poucos anos, aproximou-se sorrateiramente de nós. Servimo-lo e quis saber quem éramos.

- Alguma religião? - perguntou.
- Sim!

E, sem esperar pela resposta, atirou logo:

- Não me digam que são católicos porque eu com os católicos não quero nada!... Fizeram muitas asneiras ao longo da história, como essa da Inquisição, por isso não quero nada com eles!

- Mas somos mesmo católicos!
- Bem... mas vocês ao menos, se estão aqui é porque não são como eles.

E lá continuámos a conversa sobre o desinteresse de discutir números de quem foi o pior ou o melhor num mundo em que o desacerto tocou a todos em várias épocas da História, em que os comportamentos foram influenciados pela mentalidade desses tempos e não pelos desta época, que também não é exemplo de dignidade de comportamento humano em muitos grupos e países.

- Onde está o Homem está a imperfeição, o erro, o desvio, independentemente da ideologia que anima o grupo ou organização!
- Lá isso é verdade...

E falámos sobre ele, a sua situação e o tempo passava... Largos minutos depois desabafa:

- Estava mesmo a precisar disto! Já nem sei há quantos anos não converso assim!... Mas sinto que me está a fazer mesmo muito bem!

E continuámos mais um pouco. Mas tínhamos que vir embora porque o dia seguinte era de trabalho para alguns. Antes de nos despedirmos pergunta se me pode dar o seu contacto.

- É que quero continuar a conversar consigo. Preciso e faz-me bem.

Deu-me o seu número de telefone e do telemóvel e despediu-se. Enquanto se afastava ia voltando a cabeça e acenando uma despedida como se o nosso fosse já um conhecimento velho, estimado, saudoso...

A nossa noite tinha chegado ao fim. Sentíamo-nos leves. Passámos aquela noite como que voando nas ruas da cidade, tocando aqui e ali, ajudando quem precisava, distribuindo calor e carinho. E esse calor e ternura que levámos estava também connosco, e fazia-nos voar por sobre a miséria com que deparámos e ver sair dela e de algumas das suas vítimas inusitados sentimentos de bem, de gratidão, de singela inocência...

C.







domingo, 31 de maio de 2009

Domingo de Pentecostes


Evangelho segundo São João, 20, 19-23

«Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós: recebei o Espírito Santo».

Na tarde daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas as portas da casa onde os discípulos se encontravam, com medo dos judeus, veio Jesus, apresentou-Se no meio deles e disse-lhes:

«A paz esteja convosco».

Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o lado. Os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor. Jesus disse-lhes de novo:

«A paz esteja convosco. Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós».
Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes:
«Recebei o Espírito Santo: àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes ser-lhes-ão retidos».