quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Outra saída - Outubro 2009

Foi no dia 8 que, por troca e impossibilidade de o fazer na Quarta-Feira, saímos à rua este mês. Isso trouxe-nos alguma complicação porque nem todos ficaram avisados como era conveniente e uma amiga - a M. Elvira - surpreendeu-me na noite de Quarta- Feira com uma chamada em que perguntava onde estávamos e se não íamos à rua naquele dia. Percebi a sua confusão e desilusão porque estava "lá" com os seus mimos, sozinha!
- Preparei estas coisas para eles e não as levo para casa! Se não vêm vou eu levá-las onde puder.
E foi assim que a M. Elvira saíu, acompanhada do marido, pelas ruas do Porto em início antecipado da saída do dia seguinte!...
Acautelada, lá foi informando que, embora sozinha, era a nossa representante naquela noite! Entregou tudo na Rua Júlio Dinis.
No dia seguinte faltou-nos o contributo da Nobreza, que já tinha destino para as suas sobras do dia, e a companhia da M. Elvira, de quem já tínhamos saudades, e nos fazia falta.
Mas, mesmo com essas limitações tudo acabou por correr bem. Frustrada no seu desejo de entregar no Aleixo as descomunais sandes de broa recheada com enchidos preparadas com esmero e carinho, a M. de Lurdes viu ir parar o resultado de todo o seu trabalho às mãos dos que foram aparecendo na Câmara, na Batalha, no Carregal, no H. de Stº. António...
Para sua consolação ainda fomos ao Aleixo com meia dúzia das suas sandes. Por ironia, bastaram! Foram cinco ou seis os que apareceram.
Foi uma noite de encontros. Apareceram muitos de quem não tínhamos notícia e que prourávamos: O Fernando (da Avenida), que fomos encontrar aboletado debaixo das escadas que dão acesso aos sanitários de S. Bento, o António (que já está outra vez num quartinho na R. do Rosário, e que apareceu limpo e asseado), o Francisco (que de alegre até tropeçava nas palavras e nos deu dois fortes abraços).
Junto ao Stº. António reapareceu o Amadeu. Ao lado sussurrou outro:
- Foi meu companheiro na prisão. Acabou de sair da prisão.
- ?!...
- Estive 13 anos em Vale de Judeus. Não nos dão trabalho, temos de nos safar!
Perante essa confissão não provocada, optei por lhe dar um conselho:
- Antes de fazer qualquer coisa pare e pense se isso irá prejudicar alguém. Quando abdicamos de alguma coisa em favor dos outros sentimo-nos mais felizes do que se satisfizermos os nossos desejos.
Lá seguiram ambos em direcção indefinida, na rua e na vida. Tentando safar-se!

Casalinho

Foi no dia 28 de Outubro. À hora habitual reuniaram-se muitos apoiantes dos sem-abrigo da cidade do Porto na escadaria da igreja da SSma. Trindade, em oração com os seus amigos da rua. Numa mistura concertada ao longo da extensa escadaria rezou-se, cantou-se, ouviu-se. Ordeiramente, setados, todos receberam o lanche que lhes era destinado, a que seguiu a partilha de sandes, acepipes, bolos...
Nessa altura fui abordado e chamado à parte pela Sofia que, meio intimidada com o que pretendia expor, começou:
- Sabe... eu e o meu marido amamo-nos muito. Já iniciámos o processo para a desintoxicação e já estamos na metadona. Mas há uma coisa que nos faz muita falta. Em tempos, numa hora má, de desespero, vimo-nos obrigados a vender as nossas alianças... sabe?, a necessidade foi mais forte... Agora andamos com estas que o meu marido arranjou mas não são dignas - e mostrou umas engendradas a partir de fio de arame preto! Nós gostaríamos que as pessoas soubessem que somos casados mesmo. Não nos importamos que sejam de prata ou até de latão! Vamos fazer anos de casados e umas alianças a sério é do que precisávamos.
Ambos com formação superior, tiveram vida digna, emprego, casa, carro. Agora estão reduzidos à sobrevivência nas condições a que a droga os submeteu. Nossos conhecidos de vários encontros anteriores, com eles estabelecemos uma especial relação e sentimos que se sentem amparados pela atenção que lhes dedicamos. Variadas vezes insistimos para que se decidissem a iniciar a reabilitação e respondiam-nos sistematicamente que sim mas ambos em conjunto. Não admitiam ser separados. Por isso rejeitavam apoios das famílias que pretendiam separá-los para esse efeito. Temendo isso preferem manter-se entregues a si próprios, à mercê da caridade e da (pouca) sorte, sem eido onde viver.
- Lá no sítio onde pernoitamos a Sofia é a única mulher mas todos nos respeitam porque sabem que somos um casal.
Tomámos conta dos desejos da S. e do F.. Fazem cinco anos de casados no próximo dia 31 deste mês e vamos, com o contributo de quem quiser, tentar cumprir o seu desejo na reunião que terá lugar no mesmo local na noite do próximo dia 28. Será um momento lindo que lhes trará muita alegria e os incentivará a recuperar a alegria e a Esperança se não perdidas, muito abaladas.
E vamos rezar para que a sua recuperação seja efectiva.
Carlos

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Setembro 2009

Vindimas



Este ano o Verão tem-se mantido connosco. Os dias continuam com temperaturas bastante acima do que é costume nesta época. É tempo de vindimas. Na rua ainda se não sentiram os rigores da aproximação do frio, ainda se não reclama roupa de agasalho. Por isso não insistimos em levar roupa a não ser para uma necessidade evidente.

Preparámos o costume, insistindo nas sandes, no sumo natural a copo, na fruta e leite com chocolate. O resto que nos chega das confeitarias serve para compor a ementa.

Há gente ausente, há gente com problemas de vária ordem que não pode vir. Mas há sempre alguém com possibilidade de manter viva a chama da caridade e que aparece, que assegura a recolha dos donativos em géneros e prepara o seu contributo.

Éramos três mas chegámos para tudo. Não preparámos antecipadamente os sacos decidindo servir um-a-um à medida que fossem chegando. Utilizámos até um sistema novo: entregávamos a cada um que ia chegando um saco vazio que íamos enchendo enquanto ele o segurava. Entretanto ia sendo servido o sumo, íamos falando...

O primeiro que nos apareceu era um Russo, o Victor, que nem esperou que saíssemos do local de partida. Mas esperou que terminássemos a oração e a leitura de 1ª. Coríntios, 15, 1-11.

Depois, em J. Dinis, a Tatiana, a Diana e a Liana pediram-nos cadernos para a escola. Levaram sacos, levaram beijinhos e conselhos.

Na Câmara, reencontrámos a Sofia que nos disse que ainda não tinha contactado os Médicos do Mundo. Na vez anterior tínha-nos prometido que o faria para iniciar com o marido o processo de desintoxicação. Temos de ver se encontramos solução para eles.

Morais..., Francisco. Tem aparecido com bem melhor aspecto. Remoçou. Cabelo e barba aparados.

- Quem lhe cortou a barba e o cabelo? - perguntei.

- Fui eu!

- Como?

- Pus um espelho assim, e cortei!

Estava bem aparado. Gostámos do seu aspecto e gostaríamos que se mantivesse, pelo menos, sempre assim, se não for possível mudar para melhor.

Ficou a promessa da amiga Maria de Lurdes de lhe trazer arroz quentinho...

Descíamos a Avenida quando deparámos com um vulto estirado no chão da placa central. Demos a volta, parámos o carro e fomos ver: ergueu-se com muita dificuldade, cambaleando. O peso do álcool era demais para se poder suster. Barba grisalha, cabelo branco, parecia ter setenta anos. Mas não, disse-nos ter vindo de Viana e ter apenas 47 anos!... Encostado ao Rendimento de Reinserção, nega-se a trabalhar, a colaborar com a família, arruma carros e, em 20 minutos - disse-nos ele - fez mais de três Euros. Três Euros que tiveram como destino uns tantos copos...

Falámos longamente. Com roupa em Gaia estava ali em mangas de camisa, ao relento, porque não tinha ido a horas buscar as suas coisas. Dormir, dormiria ali, não sabendo onde seria o ali...

Ainda pusemos a hipótese de contactar o 112 mas, porque o seu estado não nos pareceu justificativo decidimos não o fazer.

Deixámo-lo melhor acomodado num banco do jardim, copo de sumo na mão para anular parte do seu mal, farnel ao lado para matar a fome, e seguimos. Batalha. Mais gente, mais fome, mais miséria.
Ultrapassámos o Carregal e seguimos directamente ao Aleixo. Apenas quatro ou cinco utentes. Ao fundo o carro da Polícia. Pois é: segurança e vigilância permanente!

Sabendo que o centro das operações fora desviado para Pinheiro Torres para lá seguimos. A romaria estava ali! O corropio parecia não mais terminar. Mas terminou com o último saco e com o último copo de sumo! Nem mais!

A nossa oração foi rezada desta vez à porta da amiga M. Lurdes, em Leça. Víramos muita miséria moral, física e material que nos incomodaram deveras. A sensação de impotência para resolver os problemas de cada um com que deparáramos não obstava a que sentíssemos uma satisfação especial, talvez por termos a noção do dever cumprido na medida das nossas possibilidades. Tudo isso agradecemos a Deus, e agradecemos a fartura de que gozamos, a saúde e a família que temos. E pedimos por todos eles, pelos seus anseios e necessidades.

Ao entrar em casa deparei com um desdobrável de campanha política intitulado: "Porto: Um compromisso".

Li a correr e deparei com um capítulo dedicado à segurança onde está escrito:

"Como estaria o Porto, se, em 2002, não tivéssemos invertido a política que estava a ser seguida ou se agora cedêssemos às pressões da oposição para não demolir o bairro do Aleixo?"

E, mais adiante:

"...um combate sério à toxicodependência são exemplos concretos que o País nunca pode esquecer."

Acabavamos de chegar da rua, do Aleixo, do Pinheiro Torres...

Enquanto o Bairro do Aleixo estava deserto por ter a polícia à porta, o Bairro Pinheiro Torres fervilhava de decrépitos frequentadores dos obscuros recantos onde a droga é oferecida e consumida a céu aberto!...

Duas perguntas se colocam ao autarca da nossa cidade:

Quando decide também demolir o Pinheiro Torres, o Bairro da Sé, o João de Deus?
E será que é a mudar de sítio que se combate a toxicodependência?

Tenho pena de quem lê tal propaganda sem ter possibilidade de aferir da sua verdade!

Que Deus nos guarde, guarde o Porto, e guarde Portugal!


C.






quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Em tempo de férias

Pois...
É de facto tempo de férias para muitos mas não para todos. Fomos ao seu encontro como de costume, ajoujados com tudo o que preparámos e conseguimos. O carro abarrotava, graças a Deus!
Quatro mensageiros, tentámos levar à rua mais uma vez uma mensagem de bem, de paz e de amor.
Em Júlio Dinis tivemos a surpresa de encontrar a Chantal em plena actividade. Deixara-nos há uns tempos e não mais soubemos dela. A semente germinou no seu coração e continua, ela, a irmã, a mãe e uma amiga, todas as Quartas-feiras a repartir o seu pão naquela rua. Foi uma alegria o reencontro. Quem não gostou foram alguns dos destinatários ao verem que não parávamos ali. Não se justificava depois de nos termos certificado que a Chantal quase que repetia o que levávamos. Por isso deixámos-lhe um garrafão de sumo e copos para completar o seu menú, e seguimos.
E seguimos pela cidade que àquela hora estava ainda cheia de transeuntes em férias, nacionais e estrangeiros.
Câmara, Francisco (voltava a estar receptivo e contente...), Batalha...
Decidimos seguir dali ao Aleixo, mas foi uma desilusão porque a polícia montou guarda àquele local e "eles" desandaram. Foi a custo que encontrámos destinatários para grande parte da merenda.
Voltámos então às ruas, entregando aos que íamos encontrando, descemos ao Carregal, à Urgência, a Júlio Dinis...
Não encontrámos destino para algum pão e para um garrafão de sumo quase inteirinho!
No final concordámos em que não devemos traçar muitos planos porque, se estamos ao serviço de Deus, temos de confiar unicamente n'Ele. Quando não confiamos, como foi o caso, os nossos planos podem sair furados... e saíram!
Ficou-nos a lição.
Rezámos por aquele casal, jovem e crente, que encontrámos e a quem demos o contacto dos Médicos do Mundo para tratarem da sua desintoxicação. Cinco anos de casamento religioso, sem filhos, a precisar urgentemente de readquirir novo rumo.
E rezámos por todos os outros que vieram ao nosso encontro, Cristos a precisar de Cristo.
Era bom que a droga e o álcool também dessem férias a todos. E, se possível, umas férias grandes... mesmo muito grandes!...
Andámos na rua, nas ruas do Porto, em noite cálida, encontrámos muitos necessitados, e nem um só momento nos lembrámos da tal gripe A...
Saúde e Paz a todos.
C.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Novamente na rua

As baixas continuam pelos mais diversos motivos.
Quem vai prepara e reúne o que pode para que não falte. Mas... no final, há sempre alguém que não recebe a sua parte. Contingências!
A habitual pontualidade na partida foi quebrada pelo atraso de uma hora na chegada do "cabaz" de Leça. Nem tudo corre sempre como esperamos mas, como o programa não é nosso, confiamos...

Apesar desse atraso quase que nem se deu por ele no percurso a não ser pela ausência de utentes na Câmara e na Batalha. Mas os restantes que encontrámos em Júlio Dinis, no Carregal e no Aleixo compensaram bem a diferença.

Na Boavista e em Júlio Dinis havia fome. No Carregal também, mas os estômagos já estavam aconchegados pela visita dos Samaritanos e pela sopa quentinha do amigo M. Rocha, que não se cansa de "Espalhar Afectos".

Porém, a história da noite foi vivida ao lado da Trindade. Tínhamos deixado para trás o Francisco - imerso desta vez em não sei que torpor que o fazia hibernar tombado sobre a sua enxerga, e de que não saíu mau grado as tentativas que fizemos - e passávamos junto ao shopping que ali fica quando nos apercebemos de um ajuntamento num daqueles portais. Voltámos atrás, parámos e fomos ver: eram quatro em torno de um casal que se estirava num cobertor; ele de perna envolta numa extensa ligadura, descalço, e ela ao lado montando guarda. Miséria guardada pela miséria, numa leitura apressada de leigo; mas solidariedade humana numa leitura mais atenta.

Face à limitação física não esperámos que viessem ao carro e, solícitos, quisemos servi-los do que levávamos. Começámos pelos que estavam ao lado. O doente, Manuel F., com quem entretanto já tínhamos estabelecido diálogo, não nos dava atenção nenhuma e, descalço, apoiado no que restava da bengala de um guarda-chuva desfeito, pôs-se em pé, iniciou uma caminhada em direcção às escadas, insensível aos apelos dos seus amigos que não cessavam de o chamar. Atravessou depois o passeio, fez-se à rua, passou ao outro lado, e seguiu com dificuldade ao longo do Largo da Trindade. Finalmente estancou mesmo defronte da escadaria da igreja, benzeu-se calmamente, ajoelhou no primeiro degrau, e, de mãos postas começou a rezar. O quê não sabemos, mas rezava... Com igual calma e dificuldade regressou para junto de nós, comovido. Não inquirimos pormenores dos motivos do seu insólito e devoto procedimento, e foi entre lágrimas e uma oração conjuntamente rezada por si que nos disse:
- Amanhã vou ser operado à perna no Hospital de Santo António!
E lá nos contou a sua infelicidade. Rezámos com ele, prometemos mais oração encorajando-o com a protecção de Deus aos que n'Ele confiam!

Ficámos a pensar: nós que pensamos levar à rua um pouco de Fé e de oração acabávamos de receber uma lição de Fé e de oração! Era digna de um quadro a cena que presenciámos às 11 horas da noite. É cena que fica gravada e não mais esqueceremos...

Do M. F. só conseguimos saber depois que deu entrada no Hospital mas que não resistiu a sair de lá sem operação! Razões? As que regem esta gente que não aceita peias ao livre uso da sua liberdade mesmo com prejuízo dos valores que nós estabelecemos como prioritários. Para ele a saúde pode esperar, a liberdade é que não! Que importa que os ossos cicatrizem fora do sítio se continua a ser senhor da sua escolha?

Estranho mundo este dos nómadas das nossas cidades!

Temos rezado pelo M. F., para que regresse e se deixe tratar. E que se deixem tratar os que fazem da sua vida uma roda viva de vai-e-vem a caminho do Aleixo...

C.

domingo, 14 de junho de 2009

Na rua em Junho de 2009

Uma partida informática impediu a publicação oportuna da notícia da última saída, mas cá estamos novamente dando conta do que de mais relevante encontrámos.

Dia 10 foi dia de festa mas isso não se notou na rua. Já houve tempo em que todo o País se sentia em festa mas agora parece que tudo se resume apenas ao palco das comemorações. A miséria não se limita apenas à fome e à carência de habitação ou de habitação condigna, mas a que mais grassa por aí é a moral, e esta toca a todos, mesmo aos bem instalados na vida e, até, no poder.

Para nós era dia de saída, de ir mais uma vez ao encontro daqueles que já não vão em "políticas", e que só costumam saborear as festas dos outros, sejam as do S. João ou o as do futebol. Aproveitam de uma e de outra as migalhas que lhes vão chegando...

Para nós, as dificuldades começaram a surgir bem cedo: um, dois, três dos habituais companheiros estavam impedidos de poderem ir neste dia. Nada nos demove. Confiamos e Deus fará o resto.

Como habitualmente, cada qual preparou as suas coisas, mas não contámos desta vez com a preparação prévia dos sacos para o Aleixo, por isso, regressámos à primeira forma de ir andando e servindo... e não é que deu certinho?

Fizemos a nossa oração como de costume e lá seguimos. Os utentes depressa começaram a surgir mas, como vinham assim iam, a correr...

Desta vez encontrámos o Francisco conversador, ria por tudo e por nada. Quase que hilariante, não era o mesmo Francisco que se entretém sistematicamente a fazer quadradinhos atrás de quadradinhos numa repetição incrível de paciência e monotonia. Foi a primeira nota interessante da noite.

Mais adiante, o carrinho da Associação "Espalhar Afectos", com afectos distribuía a habitual sopa e não só. Coração grande e raro o deste amigo que, sozinho, todos os dias marca presença nas ruas do Porto para encher estômagos e aquecer corações.

Mas, a marca do dia, como quase sempre, ficou no Aleixo. Muitos vão e vêm e, entre eles há sempre alguém que pára! E pára o tempo de que precisa para fazer o que é raro neles: conversar!

Desta vez foi o J.C.: alto, bem constituído nos seus trinta e poucos anos, aproximou-se sorrateiramente de nós. Servimo-lo e quis saber quem éramos.

- Alguma religião? - perguntou.
- Sim!

E, sem esperar pela resposta, atirou logo:

- Não me digam que são católicos porque eu com os católicos não quero nada!... Fizeram muitas asneiras ao longo da história, como essa da Inquisição, por isso não quero nada com eles!

- Mas somos mesmo católicos!
- Bem... mas vocês ao menos, se estão aqui é porque não são como eles.

E lá continuámos a conversa sobre o desinteresse de discutir números de quem foi o pior ou o melhor num mundo em que o desacerto tocou a todos em várias épocas da História, em que os comportamentos foram influenciados pela mentalidade desses tempos e não pelos desta época, que também não é exemplo de dignidade de comportamento humano em muitos grupos e países.

- Onde está o Homem está a imperfeição, o erro, o desvio, independentemente da ideologia que anima o grupo ou organização!
- Lá isso é verdade...

E falámos sobre ele, a sua situação e o tempo passava... Largos minutos depois desabafa:

- Estava mesmo a precisar disto! Já nem sei há quantos anos não converso assim!... Mas sinto que me está a fazer mesmo muito bem!

E continuámos mais um pouco. Mas tínhamos que vir embora porque o dia seguinte era de trabalho para alguns. Antes de nos despedirmos pergunta se me pode dar o seu contacto.

- É que quero continuar a conversar consigo. Preciso e faz-me bem.

Deu-me o seu número de telefone e do telemóvel e despediu-se. Enquanto se afastava ia voltando a cabeça e acenando uma despedida como se o nosso fosse já um conhecimento velho, estimado, saudoso...

A nossa noite tinha chegado ao fim. Sentíamo-nos leves. Passámos aquela noite como que voando nas ruas da cidade, tocando aqui e ali, ajudando quem precisava, distribuindo calor e carinho. E esse calor e ternura que levámos estava também connosco, e fazia-nos voar por sobre a miséria com que deparámos e ver sair dela e de algumas das suas vítimas inusitados sentimentos de bem, de gratidão, de singela inocência...

C.







domingo, 31 de maio de 2009

Domingo de Pentecostes


Evangelho segundo São João, 20, 19-23

«Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós: recebei o Espírito Santo».

Na tarde daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas as portas da casa onde os discípulos se encontravam, com medo dos judeus, veio Jesus, apresentou-Se no meio deles e disse-lhes:

«A paz esteja convosco».

Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o lado. Os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor. Jesus disse-lhes de novo:

«A paz esteja convosco. Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós».
Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes:
«Recebei o Espírito Santo: àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes ser-lhes-ão retidos».

Visitação de Nossa Senhora



A Igreja celebra a festa da Visitação de Nossa Senhora a sua prima Santa Isabel, em Ain-Karin, na Judeia. Isabel estava grávida de São João Baptista, o precursor de Jesus. É o encontro de duas mulheres que celebram jubilosas a vinda de Jesus Salvador: o Reino de Deus, a Boa Nova, as promessas de Deus já estão cumpridas e continuam a cumprir-se no meio dos homens de boa vontade.
No seu evangelho, São Lucas afirma: naqueles dias, Maria pôs-se a caminho para a região montanhosa, dirigindo-se apressadamente a uma cidade de Judá. Entrou na casa de Zacarias e saudou Isabel. Ora, quando Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança estremeceu no seu ventre e Isabel ficou repleta do Espírito Santo. Com um grande grito, exclamou: "Bendita sois vós, entre as mulheres e bendito é o fruto do vosso ventre!" (Lucas 1,39ss.).
É o milagre da vida que brota com força e poder e vence o mundo. É a força e o poder da Palavra de Deus que faz a Virgem conceber e aquela que era estéril dar à luz (Lucas 1,30ss.). É por isso que Maria, trazendo Jesus no seu seio, irrompe neste sublime canto de alegria e júbilo que é o "Magnificat" (Lucas 1,46-55).
Maria glorifica o Senhor que n’Ela actua


A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito exulta em Deus meu Salvador.
Com estas palavras Maria reconhece, em primeiro lugar, os dons singulares que Lhe foram concedidos e enumera depois os benefícios universais com que Deus favorece continuamente o género humano.


Glorifica o Senhor a alma daquele que consagra todos os sentimentos da sua vida interior ao louvor e serviço de Deus e, pela observância dos mandamentos, mostra que está a pensar sempre no poder da majestade divina. Exulta em Deus, seu Salvador, o espírito daquele que se alegra apenas em meditar no seu Criador, de quem espera a salvação eterna.


Embora estas palavras se apliquem a todas as almas santas, adquirem contudo a sua ressonância mais perfeita ao serem proferidas pela bem-aventurada Mãe de Deus, que, por singular privilégio, amava com perfeito amor espiritual Aquele cuja concepção corporal no seu seio era a causa da sua alegria.


Com razão pôde Ela exultar, mais que todos os outros santos, em Jesus, seu Salvador, porque sabia que o eterno Autor da salvação havia de nascer da sua carne com nascimento temporal, e, sendo uma só e mesma pessoa, havia de ser ao mesmo tempo seu Filho e seu Senhor.


Porque fez em mim grandes coisas o Todo-poderoso, e santo é o seu nome. Maria nada atribui aos seus méritos, mas reconhece toda a sua grandeza como dom d’Aquele que, sendo por essência poderoso e grande, costuma transformar os seus fiéis, pequenos e fracos, em fortes e grandes.


Logo acrescentou: E santo é o seu nome, para fazer notar aos que a ouviam e mesmo para ensinar a quantos viessem a conhecer as suas palavras, que, pela fé em Deus e pela invocação do seu nome, também eles poderiam participar da santidade divina e da verdadeira salvação, segundo a palavra do Profeta: E acontecerá que todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo.


É precisamente o nome a que Maria se refere ao dizer: E o meu espírito exulta em Deus meu Salvador. Por isso se introduziu na liturgia da santa Igreja o costume, belo e salutar, de cantarem todos este hino de Maria na salmodia vespertina, para que o espírito dos fiéis, ao recordar assiduamente o mistério da Encarnação do Senhor, se entregue com generosidade ao serviço divino e, lembrando-se constantemente dos exemplos da Mãe de Deus, se confirme na verdadeira santidade.


E pareceu muito oportuno que isto se fizesse na hora de Vésperas, para que a nossa mente, fatigada e distraída ao longo do dia com pensamentos diversos, encontre o recolhimento e a paz de espírito ao aproximar-se o tempo de descanso.


domingo, 24 de maio de 2009

Mensagem de Bento XVI


Bento XVI alerta para vantagens
e perigos do mundo digital

Papa publicou Mensagem para o Dia Mundial das Comunicações Sociais

Na Mensagem para o 43.º Dia Mundial das Comunicações Sociais, que se assinala dia 24, o Papa Bento XVI enaltece a importância das redes digitais, mas lança também alguns alertas sobre os perigos do mundo virtual.

No documento, intitulado «Novas tecnologias, novas relações. Promover uma cultura de respeito, de diálogo, de amizade», Bento XVI defende que os novos instrumentos de comunicação não devem contribuir «para incrementar o desnível entre pobres e ricos».

As novas redes digitais potenciam a «solidariedade humana, a paz e a justiça, os direitos humanos e o respeito pela vida e o bem da criação», refere o Santo Padre, para quem as novas tecnologias abriram «a estrada para o diálogo entre pessoas de diferentes países, culturas e religiões».

Apesar de ter aberto este caminho, o ciberespaço não pode, segundo o Papa, «banalizar o conceito e a experiência da amizade». Neste sentido, o documento chama a atenção para o perigo de a ligação virtual ser obsessiva, levando a pessoa a isolar-se e a interromper a interacção social real.

«Seria triste se o nosso desejo de sustentar e desenvolver “online” as amizades fosse realizado à custa da nossa disponibilidade para a família, para os vizinhos e para aqueles que nos encontramos na realidade do dia-a-dia, no lugar de trabalho, na escola, nos tempos livres».

Quem opera ao nível da produção e difusão de conteúdos dos novos meios de comunicação social deve sentir-se obrigado a respeitar a dignidade e o valor da pessoa humana.

Na opinião de Bento XVI, «se as novas tecnologias devem servir o bem dos indivíduos e da sociedade, então aqueles que as usam devem evitar a partilha de palavras e imagens degradantes para o ser humano».

Nossa Senhora Auxiliadora



Auxiliadora,
Virgem Formosa,
dos pequeninos, Mãe dadivosa,
de mil tormentas entre o furor,
teus filhos salva, astro de amor.

O Arcanjo Gabriel ao levar a mensagem de Deus à Virgem Maria, apenas trocou um paraíso por outro. A alma de Maria era como um oceano de graça quase sem praias, sem horizontes, sem limites. A Virgem Maria é como um precioso diamante cravado na aliança entre Deus e os homens, anunciando as núpcias do céu com a terra.

Durante o diálogo da Anunciação do Anjo Gabriel com a Virgem Maria, um silêncio se fez no céu, a Trindade Santíssima com toda a corte celeste aguardava, ansiosa, a resposta da jovem Maria, e ao ouvirem o seu sim, trombetas anunciaram com grande júbilo da obediência e a vitória da mulher sobre a serpente. O Salvador estava para chegar; a humanidade ganhava uma poderosissima auxiliadora, a Virgem concebida sem pecado, a Arca da Nova Aliança, o Primeiro Sacrário de Jesus na terra.

A Auxiliadora

Os antigos romanos chamavam “Auxilia” às tropas aliadas que combatiam com as suas legiões. Assim o nome “Auxilia”, evoca lutas em campos de batalha, onde a vida se pode tornar heroísmo em defesa de um ideal.
A Igreja aqui na terra é também uma milícia; e os cristãos lutam pela defesa e pela propagação da fé. Nossa Senhora é o seu auxílio no combate e é terrivel como um exército em ordem de batalha.

No século XVI, foi ameaçador o domínio do Mediterrâneo pela força naval dos turcos. O Papa São Pio V conseguiu unir Espanha com Veneza, sob o comando de João da Áustria e, em 1571 no Estreito de Lepanto, destruíu-se totalmente a força naval da Turquia. Durante a batalha o Papa rezava, com toda a sua corte, o rosário de Nossa Senhora. Depois da vitória, o Papa São Pio V, mandou incluir na Ladainha Lauretana a invocação de Maria “Auxílio dos Cristãos”.
Napoleão Bonaparte deportou o Papa Pio VII de Roma, que ficou prisioneiro em França entre 1809-1814. Tendo experimentado o poderoso auxílio da Mãe de Deus, quando recuperou a liberdade, Pio VII decretou a celebração da festa com o título Auxílio dos Cristãos, no dia 24 de Maio do Ano Litúrgico.

O Papa Pio IX exaltou a figura de Maria quando promulgou o dogma da Imaculada Conceição(Ineffabilis Dei, 1854) com estas palavras: “Maria é fidelíssima auxiliadora e poderosíssima mediadora e reconciliadora de toda terra junto a seu Filho Unigénito”

A invocação “Auxílio dos Cristãos” é a forma pública e social da mediação que a Santíssima Virgem exerce não só a favor de pessoas, instituições e países, mas tambem para o bem de toda a Igreja Católica e do Santo Padre, o Papa, principalmente nos momentos mais trágicos da humanidade e nos períodos mais difíceis da Santa Igreja.

A Auxiliadora de Dom Bosco

São João Bosco, desde o colo materno, nutria pela Virgem Maria, uma devoção filial e de total confiança. Aos nove anos tem um sonho profético de sua missão, em que o próprio Cristo lhe diz: “Eu te darei a mestra, sob cuja doutrina podes tornar-te sábio, e sem a qual todo o saber torna-se estultice”.

São João Bosco colocou a invocação Auxilio dos Cristãos, sob o título de Nossa Senhora Auxiliadora, no centro da espiritualidade das suas congregações recém-fundadas. Dom Bosco, homem de sonhos e de uma visão de futuro sem par! Dom Bosco homem de oração e trabalho, incansável pela salvação de almas, pelo bem–estar e o crescimento integral dos seus jovens, religioso que acreditou na juventude e por ela gastou sua existência.

Dom Bosco nada atribuía a si mesmo e dizia sempre: “Foi Maria quem tudo fez!” O Papa Pio IX, em 1868, escrevia a Dom Bosco aquando a consagração do Santuário de Nossa Senhora Auxiliadora, exaltando o patrocínio de Maria sobre a Igreja e o Pontifície.

João XXIII recorria a “Maria Auxiliadora” e invocava-a no discurso inaugural do Concílio Ecuménico Vaticano II. O mesmo fez Paulo VI. A todos que recorriam a Dom Bosco nas suas dificuldades (...), recomendava a novena à Virgem Auxiliadora que constitia em três Pai-Nossos, três Ave-Marias, Três Glórias ao Pai, acrescentando a jaculatória: “Graças e louvores se dêem a todo momento, aos Santissímo e Divinissimo Sacramento", três Salve-Rainhas, acresentando a invocação: "Maria Auxiliadora dos Cristãos, rogai por nós", durante nove dias, e oferecer alguma colaboração para obras caritivas.”Na Basílica o maior monumento é a belíssima pintura sobre o altar-mor, com sete metros de altura por quatro de largura, do pintor Lorenzone, ladeada por uma bela moldura dourada. Nela a Virgem Auxiliadora é representada em toda a sua realeza ladeada pelos Apóstolos e Evagenlistas.
(...) Paz e Bem

«Pregai o Evangelho a toda a criatura»



Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos, 16, 15-20


Naquele tempo, Jesus apareceu aos onze Apóstolos e disse-lhes: «Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda a criatura. Quem acreditar e for baptizado será salvo, mas quem não acreditar será condenado. Eis os milagres que acompanharão os que acreditarem: expulsarão os demónios em meu nome falarão novas línguas, se pegarem em serpentes ou beberem veneno, não sofrerão nenhum mal quando impuserem as mãos sobre os doentes, eles ficarão curados».


E assim o Senhor Jesus, depois de ter falado com eles, foi elevado ao Céu e sentou-Se à direita de Deus. Eles partiram a pregar por toda a parte e o Senhor cooperava com eles, confirmando a sua palavra com os milagres que a acompanhavam.

domingo, 17 de maio de 2009

Maio de 2009

Com Maria, na rua


Mês de Maio, mês de Maria.

É também mês de peregrinações. Por força de uma destas, a Fátima, a pé, tivemos de antecipar a nossa saída para dia 6, substituindo os voluntários da Associação Fas+.

À pressa, porque os dias anteriores tinham sido de especial azáfama, lá preparámos o necessário, como de costume. Éramos 5, e chegámos.

Ainda não tínhamos iniciado a volta e já o primeiro nos solicitava auxílio. Não fazia inicialmente parte do grupo dos necessitados mas o rumo que deu à vida também neles o incluiu. E lá está! Vem quase sempre no princípio.

Estranhámos não encontrar ninguém na Boavista. Mais tarde soubemos porquê: a noite de Queima atraiu os sem-abrigo à zona da Circunvalação ao chamariz da arrumação de viaturas. E isso manifestou-se em toda a cidade e, até, no Aleixo!
Descrever o que foi o roteiro seria uma simples crónica, mas não queremos limitar-nos a isso. A noite é rica por outros motivos: pelas vivências que nos traz ou que despoletamos naqueles a quem nos dirigimos. Pelos sentimentos que despertamos.
Há noites simples, quase que sem história, como foi a de Abril, em que os três que saímos cumprimos a missão sem alarde e sem factos dignos de especial registo.
Já nesta não aconteceu o mesmo. Não encontrámos o Fernando (da Praça). Onde parará?!... Mas reapareceu o outro Fernando, o artista das casinhas de cartão, e o Carlitos!... Recuperado, bem barbeado, surpreendeu-nos no Carregal a dar conta de que está ocupado e até tem intervido em acções de formação. Boa!... As boas notícias são de dar a conhecer. Nunca tudo está perdido. Há que manter a Esperança. Perdido está às vezes o passado, mas há sempre um futuro que pode depender de nós. Temos de o aproveitar!
Um grande e sentido abraço selou o reencontro. Ainda há uma hora tinha perguntado por ele aos Samaritanos...
Neste dia trazíamos por tema a leitura de Actos, 15, 7-12, em que Pedro diz que Deus o escolheu para levar aos pagãos o Evangelho para eles abraçarem a Fé. E, no Aleixo, tivémos ocasião de tomar o lugar de Pedro em franco diálogo com o Rui, ateu ou agnóstico, muito ocupado com todas as coisas menos com as de Deus e da sua alma. Descreveu-nos a sua iniciação nas drogas duras aos 16 anos, após demorada experiência com os charros, que eram o seu centro de interesse e da sua roda de amigos até àquela altura. Muito inteligente, durante o nosso curto diálogo desfez alguns mitos que lhe povoavam o espírito, ideias e frases feitas nunca antes discutidas e aceites como boas "porque sim", porque dá trabalho debruçarmo-nos sobre assuntos que não fazem parte do nosso quotidiano e "são uma maçada", "betices". Queria deixar "aquela vida", mas as diversas tentativas falhadas que já fez levam-no a desistir...
E ali estava ele, entretido com o pacotinho "milagroso" de coca e heroína que fazia saltitar entre os dedos enquanto a conversa se estendia...
Despediu-se, surpreso por ter conversado com "católicos" que dizia detestar, e, pior, de ter feito amizade com "eles" ao menos durante uns largos minutos daquela noite!
Rezámos por ele, pela sua incapacidade de mudar, e por quantos que, como ele, também anseiam por uma vida nova sem vislumbrarem uma saída.
A FÉ!... É a Fé que tem poder de os fazer mudar. Sem fé nada poderá mudar, com fé até montanhas poderão ser removidas... O que é indispensável é que se acredite mesmo no que nos parece ser impossível!
Terminou a nossa noite na rua. Mas continuou em cada um de nós no eco que nos deixou a história do Rui, a sua vida que nunca deixou de ser atribulada mau grado a grande capacidade de a ter feito diferente do que de facto é!

"Nossa Senhora lhes dê a mão!...".
Carlos

O Rei do reis


«Num momento de crescendo da conflitualidade social, a Igreja propõe-se trazer para a praça pública suplementos de Paz e razões fundamentadas de esperança. Sim, sou rei. Disse Jesus a Pilatos. Mas acrescentou, para que não restassem dúvidas de que a sua vinda ao mundo não lhe faria concorrência: o meu reino não é deste mundo!
Os cristãos de Lisboa são chamados a reflectir sobre a frase de Jesus esta semana: sim sou rei! E são aconselhados pela Conferência Episcopal a meditar sobre o significado mais profundo dessa realeza. Servem de pretexto os cinquenta anos do santuário do Cristo Rei.
Num mundo onde a laicidade mal entendida domina e o fenómeno religioso é empurrado para o reduto invisível das consciências, vale a pena pensar no que os Bispos designam como laicidade positiva capaz de retrazer, sem temores, o fenómeno religioso para o espaço público. Como bem repetia Tony Blair, há dias, em Portugal, “ a religião é uma força muito importante no mundo de hoje”.

Negar esta evidência é não compreender a humanidade e desconhecer o que ela implica de aspiração a uma felicidade absoluta a que a estrita dimensão terrena dificilmente é capaz de dar resposta. Num momento de crescendo da conflitualidade social, a Igreja propõe-se trazer para a praça pública suplementos de Paz e razões fundamentadas de esperança.

As imagens religiosas, sinais do divino na terra dos homens, servirão de elemento agregador e motivo de oração. E não deixarão de ser factor de escândalo de todos os que são incapazes de entender que a verdadeira liberdade passa por, abdicando dos favores e honrarias do tempo, só prestar vassalagem ao Rei dos reis».
Graça Franco (texto), Opinião RR
Singra13 (foto)

Evangelho de domingo, 17 de Maio de 2009


Francisca Maria Marquês Rebelo (foto)
Leitura dos Actos dos Apóstolos 10,25 - 26.34 - 35.44 - 48

Naqueles dias, Pedro chegou a casa de Cornélio. Este veio-lhe ao encontro e prostrou-se a seus pés. Mas Pedro levantou-o, dizendo:

"Levanta-te, que eu também sou um simples homem".

Pedro disse-lhe ainda: "Na verdade, eu reconheço que Deus não faz acepção de pessoas, mas, em qualquer nação, aquele que O teme e pratica a justiça é-Lhe agradável».

Ainda Pedro falava, quando o Espírito desceu sobre todos os que estavam a ouvir a palavra. E todos os fiéis convertidos do judaísmo, que tinham vindo com Pedro, ficaram maravilhados ao verem que o Espírito Santo se difundia também sobre os gentios, pois ouviam-nos falar em diversas línguas e glorificar a Deus. Pedro então declarou: "Poderá alguém recusar a água do Baptismo aos que receberam o Espírito Santo, como nós?". E ordenou que fossem baptizados em nome de Jesus Cristo. Então, pediram-lhe que ficasse alguns dias com eles.

Evangelho segundo São João, 4,7-10
Leitura da Primeira Epístola
«Caríssimos: amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus e todo aquele que ama nasceu de Deus e conhece a Deus. Quem não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor. Assim se manifestou o amor de Deus para connosco: Deus enviou ao mundo o seu Filho Unigénito, para que vivamos por Ele. Nisto consiste o amor: não fomos nós que amámos a Deus, mas foi Ele que nos amou e enviou o seu Filho como vítima de expiação pelos nossos pecados».

quinta-feira, 14 de maio de 2009

D. João Lavrador critica poder político



«O Governo não soube prever e prevenir a crise e agora terá de encontrar respostas para evitar um impacto maior na vida dos portugueses, diz o Bispo Auxiliar do Porto, em entrevista à Renascença.

Para D. João Lavrador, é preciso olhar menos para as estatísticas e mais para as situações de desemprego e de pobreza. Nesta entrevista em Fátima, a menos de 72 horas do simpósio da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) sobre a situação social do país, o Bispo Auxiliar do Porto pede mais verdade e seriedade em tempo de eleições. D. João Lavrador sublinha que “o papel da Igreja é dar sempre sinais de esperança”, sobretudo, neste “momento crítico e muito doloroso” para os portugueses.
Relativamente ao caso concreto da Diocese do Porto, o Bispo Auxiliar diz que “os sinais da crise são as próprias pessoas” que recorrem à Igreja, cada vez em maior número, a pedir ajuda para fazer face aos seus problemas económicos. “Normalmente, a nível social, olha-se para os desempregados como números, são percentagens (…) mas por trás destes números estão realidades pessoais, famílias que estão a passar fome, sem emprego e que não têm abertura para a solução das suas vidas”, afirma D. João Lavrador».

RV/Domingos Pinto (texto), Rádio Renascença

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Crise social preocupa Igreja

«Igreja teme explosão social violenta por causa da crise

Bispo alerta para o facto de a crise poder gerar manifestações violentas. Estado e sociedade civil têm papel a desempenhar
O bispo da diocese de Leiria e Fátima mostrou-se esta terça-feira preocupado com a actual crise económica que se vive no país, e que pode levar a "uma explosão social violenta". D. António Marto pediu a contribuição de todos.

"Não podemos deixar que a crise económica se transforme numa explosão social violenta. Para evitar esse risco todos devem contribuir com a sua parte: o Estado, empresários, trabalhadores, sindicatos e sociedade civil", afirmou o bispo.

Falando aos jornalistas momentos antes do início das celebrações da peregrinação aniversária de Maio (...) , D. António Marto defendeu "uma reflexão atenta" sobre "as regras da finança e da economia, e sobre o modo de fazer das empresas, sobre a intervenção das instituições a favor de quem está em dificuldade por causa da crise".

Segundo o bispo diocesano esta crise "pôs em evidência como no trabalho empresarial é absolutamente necessário a referência ao fundamento ético" e aproveitou para deixar um recado aos empresários: "um trabalhador não é simplesmente uma das muitas componentes da empresa. É uma pessoa com expectativas, sonhos e projectos que vão para além do tempo passado no trabalho".

Apelando ao "sentido de responsabilidade" de todos, D. António Marto voltou a reafirmar que "a Igreja não se pode substituir ao papel do Estado e das instituições de solidariedade", apesar de "muito fazer junto das comunidades" onde está inserida. O trabalho em rede "é mais eficaz e inteligente", garantiu o prelado que se mostrou preocupado com as famílias portuguesas.
O direito ao trabalho, sustentou "é o elo mais fraco em toda a cadeia de consequências desastrosas da crise" argumento D. António Marto, adiantando que o espírito de solidariedade "levou à mobilização de todos os organismos sócio-caritativos da Igreja, a nível nacional, diocesano e paroquial".
E para que "quem perde o trabalho não perca também a dignidade", o bispo da Diocese de Leiria e Fátima pede a todas as comunidades cristãs que façam uma leitura "sábia" das necessidades concretas" e elaborem projectos "inteligentes" que ajudem os mais necessitados.

Por seu turno, o arcebispo das Honduras e presidente da Cáritas Internacional lembrou que a caridade "é uma virtude importante e que deve ser cultivada". Para D. Oscar Maradiaga a crise internacional "não é só económica" mas também de "valores", acusando o homem de "pensar que Deus e que tudo pode". "A ganância tem limites. A economia tem limites" disse o arcebispo aditando que a solução para a pobreza "chama-se solidariedade".

Ao longo do ano passado houve um decréscimo de ofertas dos peregrinos ao Santuário, revelou o reitor Virgilio Antunes, garantindo contudo que "não foi significativo". Lembrando que o Fundo de Caridade do Santuário é de mais de meio milhão de euros que anualmente são distribuídos por várias instituições e igrejas não só de Portugal como do mundo, o reitor lembra que "as pessoas são generosas" e que "quando se fala em apoiar instituições elas fazem-no".

O bispo da diocese garante que "não há desafeição" dos peregrinos adiantando ser "natural" que as pessoas ofereçam menos em tempo de crise».
ALEXANDRA SERÔDIO, edição electrónica do Jornal de Notícias

terça-feira, 12 de maio de 2009

Uma Senhora mais brilhante que o sol



«Os puros de coração verão a Deus» (Mt 5,8 )


Em vésperas do dia 13 de Maio, são já milhares os peregrinos que se encontram no Santuário de Fátima para as celebrações da aparição de Nossa Senhora aos três pastorinhos em 1917. Associados a esta grande Graça de Deus, deixamos aqui o texto subordinado a esta peregrinação (e também a deste ano) e algumas informações extra.
«Os puros de coração verão a Deus»

O Santuário de Fátima escolheu como tema central das suas actividades pastorais, litúrgicas e formativas deste ano, o nono mandamento da Lei de Deus, segundo a formulação do catecismo tradicional: guardar castidade nos pensamentos e nos desejos.
A formulação bíblica do livro do Êxodo diz: “não cobiçarás a casa do teu próximo, não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma que lhe pertença”. Uma e outra formulação centram-se no coração humano, sede de toda a personalidade moral, para exprimir a grande orientação.
A frase do Evangelho segundo S. Mateus, “os puros de coração verão a Deus”, ajuda-nos a entrar no conteúdo do mandamento de Deus e a captar os apelos de pureza do coração e da vida, que são caminho de renovação pessoal e de abertura à sã convivência comunitária.
Ponto prévio para o acolhimento deste mandamento de Deus é a fé de que o apelo provém do Deus da aliança, da amizade e do amor, do Deus que nos propõe caminhos de vida que nos tornam efectivamente felizes. Para quem não conhece Deus, para quem não tem fé ou para quem desconfia da bondade de Deus, qualquer mandamento ou preceito pode soar a exigência despótica, a sacrifício indesejado, a atentado contra a autodeterminação humana.
Terá sentido, ainda hoje, falar de pureza de coração? A experiência de vida e de relações existentes entre as pessoas está continuamente a demonstrar, pela negativa, as consequências da sua ausência. Os fenómenos de desagregação familiar, consequência de infidelidades e traições, são o melhor espelho. Se, para tirarmos esta conclusão, não bastasse a vida real que conhecemos directa ou indirectamente,teríamos a avalanche de romances, filmes e novelas que, por outra via, nos fazem entrar essa realidade pelos olhos dentro.
Os fenómenos de fraude económica e financeira, de pequena ou grande escala, fazem-nos duvidar da rectidão de tantas intenções, palavras e acções, frequentemente revestidas das melhores aparências. Os fenómenos de sedução e aliciamento, assentes nas mais bonitas promessas de felicidade a baixo custo, revelam corações incapazes de amar e simplesmente interessados em explorar.
Quantas pessoas, adolescentes e jovens se não têm deixado cair nas teias preparadas por corações viciados e exploradores, que através dos novos meios de comunicação conseguem realizar os seus intentos! E as promessas de trabalho em paraísos de felicidade e de dinheiro fácil que acabam em autênticos cativeiros, lágrimas e dor, fruto de corações sem escrúpulos!
O coração, com tudo o que representa, quando se perverte, desencadeia os piores males. Quase sempre a felicidade e pureza de coração são mais discretas. No entanto, a experiência de vida e de relações entre as pessoas também são suficientes para demonstrar, pela positiva, o que é e o que vale um coração puro.
São grandes os homens e mulheres, pais e mães, trabalhadores, jovens e adultos, cujo sonho é simplesmente viver de forma honesta, justa e santa. Não desejam nada que ponha em causa o bem dos outros, não anseiam senão por dar o seu contributo para que todos tenham pão, paz, companhia, amizade… Anseiam ver a Deus, sem dúvida, mas sempre pela via do respeito e do amor aos irmãos.
O Santuário de Fátima procurará ainda ao longo deste ano apresentar a figura do Beato Francisco Marto, no centenário do seu nascimento, como uma dessas figuras grandes na pureza de coração. Extremamente atento às necessidades dos outros, por quem reza e se sacrifica; extremamente atento a Deus, com quem tem gosto de estar e que anseia por ver.
Nisso se resumem os seus pensamentos, os seus desejos e a sua vida.

P. Virgílio Antunes, Reitor
(Artigo "Voz da Fátima",de 13 de Janeiro de 2009)

Se pretende escutarou assistir à transmissão das cerimónias pode fazê-lo através dos seguintes meios (a hora usada é a de Lisboa para todos os casos):
INTERNET - dias 12 e 13
Capelinha das Aparições no Santuário e Fátima (videocâmara permanente do Santuário)
Antena 1 e RDPi (dias 12 e 13, nos horários das transmissões de rádio e televisão)
Dia 12 - Rádio
Antena 1, RDPi, das 22 às 24 horas
Rádio Renascença (necessita confirmação)
Dia 12 - Televisão
RTP1, das 00.18 às 00.59 horas (em diferido)
RTP Madeira, das 23.30 às 00.15 horas (em diferido)
RTPi Europa, das 01.30 às 2 horas
RTPi América, das 05.30 às 06.00 horas
Telepace (sátelite)
Dia 13
Rádio
RDPi, das 10:12 às 13 horas
Radio Renascença (necessita confirmação)
Televisão
RTP1, das 10 às 13 horas
RTP Madeira, das 10 às 13 horas
RTPi Europa, das 9 às 13 horas
RTPi América, das 9 às 13 horas
RTPi Ásia, das 10 às 13 horas
Telepace (sátelite)
Canção Nova (a confirmar)
TVI (a confirmar)
A Mensagem de Fátima encontra-se disponível na íntegra no sítio do Santuário de Fátima na internet.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Peregrinação Internacional de Maio

Cardeal D. Oscar Maradiaga

preside às celebrações


«A Peregrinação Internacional Aniversária de Maio, nos dias 12 e 13, será presidida pelo Cardeal D. Oscar Andrés Rodríguez Maradiaga s.d.b., Arcebispo de Tegucigalpa / Honduras, e presidente da Cáritas Internacional.

D. António Marto, Bispo de Leiria-Fátima, sublinha que a vinda de D. Óscar Rodríguez Maradiaga a Fátima "se deve ao facto de ele vir a Portugal a um congresso promovido pela Caritas. Sabendo disso, aproveitei a oportunidade para convidá-lo a presidir à peregrinação, podendo assim oferecer-nos uma visão universal das consequências da actual crise socio-económica, na sua qualidade de Presidente da Caritas Internacional"», noticia o sítio oficial do Santuário de Fátima.

A agenda das celebrações para os dias 12 e 13 é a seguinte:

Dia 12

MISSAS, em português, na Basílica: - 07:30, 09:00, 11:00 e 12:30.

MISSAS em línguas, na Capelinha: 07:30 - Deutsch (Alemão), 08:30 - English (Inglês), 09:30 - Français (Francês), 10:30 - Español (Espanhol), 11:30 - Nederlands (Neerlandês), 12:30 - Italiano (Italiano), 13:30 - Po Polsku (Polaco)
16:30 - MISSA com a participação dos doentes, no Recinto, e PROCISSÃO EUCARÍSTICA.
18:30 - INÍCIO OFICIAL DA PEREGRINAÇÃO, na Capelinha.
21:30 - Bênção solene de velas e ROSÁRIO, na Capelinha, e PROCISSÃO DE VELAS.
22:30 - EUCARISTIA, no Altar do Recinto.

Dia 13

Noite de Vigília - 00:00 às 02:00 -
Adoração Eucarística - 02:00 às 03:30
Via-sacra - 03:30 às 04:30
Celebração Mariana - 04:30 às 05:30
Missa - 05:30 às 07:00
Adoração com Laudes do SS.mo Sacramento
07:00 - PROCISSÃO EUCARÍSTICA.
09:00 - ROSÁRIO, na Capelinha.
10:00 - PROCISSÃO, EUCARISTIA, BÊNÇÃO DOS DOENTES, CONSAGRAÇÃO E ADEUS.

domingo, 10 de maio de 2009

«Eu sou a videira... »


Evangelho segundo São João, 15, 1-8

«Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos:

"Eu sou a verdadeira vide e meu Pai é o agricultor. Ele corta todo o ramo que está em Mim e não dá fruto e limpa todo aquele que dá fruto, para que dê ainda mais fruto. Vós já estais limpos, por causa da palavra que vos anunciei. Permanecei em Mim e Eu permanecerei em vós. Como o ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira, assim também vós, se não permanecerdes em Mim.

Eu sou a videira, vós sois os ramos. Se alguém permanece em Mim e Eu nele, esse dá muito fruto, porque sem Mim nada podeis fazer. Se alguém não permanece em Mim, será lançado fora, como o ramo, e secará. Esses ramos, apanham-nos, lançam-nos ao fogo e eles ardem. Se permanecerdes em Mim e as minhas palavras permanecerem em vós, pedireis o que quiserdes e ser-vos-á concedido. A glória de meu Pai é que deis muito fruto. Então vos tornareis meus discípulos"».

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Nossa Senhora Medianeira



Hoje festejamos o dia de Nossa Senhora Medianeira (nossa) junto do Trono do Pai, do Filho e do Espírito Santo. É a Ela a quem recorremos na inspiração, na protecção, no conselho, nas angústias, nas dores, nas alegrias...


É a Ela a quem chamamos Arca da Aliança, Porta do Céu, Refúgio dos pecadores, Medianeira de todas as Graças. É com Ela que aprendemos a amar Deus e, sob a Sua protecção, vamos ao Seu encontro. Com Ela aprendemos a orar, a ter constância e perseverança na Fé, a aceitar alegremente a vontade de Deus. Com Ela ficamos fortalecidos na Esperança, na Fé, no Amor e na Sabedoria.


Deixamo-vos com a síntese de um texto sobre este dia, encontrado no sítio da Causa do Padre Pinho.
L.

«Diz a toda a gente que Deus nos concede as graças por meio do Coração Imaculado de Maria.»

Jacinta

(...)

«É por intermédio de Maria, que devemos esperar todas as graças — escrevia Sua Santidade Pio XII ao Cardeal Secretário de Estado, a 15 de Abril de 1942. Portanto exortamos a recorrerem a Ela, e especialmente no próximo mês que Lhe é dedicado... Todos sabem, na verdade, que sendo Jesus Cristo, Rei universal, Senhor dos que dominam e conservam em suas mãos as sortes dos indivíduos e dos povos, Sua Santa Mãe venerada por todos os fiéis como Rainha do mundo, tem junto dele o maior poder de intercessão. E se o primeiro milagre operado pelo Divino Redentor em Caná de Galileia, se deve à Sua suplicante misericórdia: se Seu Filho unigénito enquanto estava pendente na cruz, nos deixou o que Lhe era mais caro, dando-nos por mãe Sua própria Mãe; se finalmente no decorrer dos séculos os nossos antepassados recorreram a Ela confiadamente em todas as calamidades públicas e particulares: porque não nos confiaremos nós e todas as nossas coisas ao Seu poderosíssimo patrocínio, enquanto o mundo se debate numa pavorosa crise actual?

"Porque tudo obedece aos desígnios divinos, assim se pode ter por certo, que em qualquer momento, Seu Unigénito escuta benignamente as preces de Sua Divina Mãe; e agora especialmente que a Santíssima Virgem goza da eterna bem-aventurança no Céu, aureolada de triunfal coroa, e saudada como Rainha dos Anjos e dos homens. Pois se junto de Deus Ela goza de tanto poder, certamente terá piedade de nós, sendo como é Mãe amorosíssima".

No mesmo ano em Outubro, o mesmo Sumo Pontífice Pio XII, paralelamente ao que fez Leão XIII com o Coração de Jesus, confiando nessa especial mediação do Coração de Maria, "seguro de conseguir misericórdia e encontrar graça e auxílio oportuno nas presentes calamidades" consagrou o mundo ao Imaculado Coração da Virgem Mãe.

"Assim como ao Coração de Jesus foram consagrados a Igreja e todo o género humano, para que colocando nele todas as suas esperanças, lhe fosse sinal e penhor de vitória e salvação (é Pio XII que fala na dita Consagração) assim nós nos consagramos perpetuamente a Vós e ao vosso Coração Imaculado, à Mãe nossa e Rainha do mundo".

(...)

A Consagração é formalíssima nas palavras que se seguiram à mensagem e repetidas depois solenemente na Igreja de S. Pedro; e a proclamação de Nossa Senhora como Rainha do mundo, também nos parece bem explicita nos termos finais ainda agora citados: "O Mãe nossa e Rainha do mundo!"

Mas dir-se-ia que neste documento Sua Santidade Pio XII visava mais longe. Outro pedido não menos insistente e piedoso dos fiéis à Santa Sé tem sido o da definição dogmática da Mediação Universal de Nossa Senhora.

Afigura-se-nos, que este acto do Pontífice é como uma preparação próxima para o dia que não virá longe da suspirada definição.

Com efeito: a Consagração, em primeiro lugar pressupõe a Mediação de Maria Santíssima. Na verdade, Mediação significa a prerrogativa pela qual a Virgem Maria está colocada entre Deus e os homens para junto do Altíssimo interceder por eles, alcançando-lhes perdão dos pecados e penas merecidas e obtendo-lhes todas as graças e favores de que necessitam. E uma participação da Mediação primária e essencial de Cristo e por isso, dela inteiramente dependente, a ela subordinada e recebendo dela toda a eficácia e valor.

Para maior proveito e consolação dos homens concedeu Jesus à Sua e nossa Mãe esta glória que em nada obscurece a luz do sol pelo qual ela é iluminada — Delicadeza extrema do Coração de Jesus! "Nenhuma ternura nem dedicação da perfeita maternidade faltam à paternidade do Novo Adão; mas nós não sabemos bem vê-las nele; e Maria para os nossos olhos tão débeis, para os nossos corações tão desconfiados e tardios em crer, é uma revelação o mais persuasiva e o mais encantadora possível dessa ternura e dedicação. Vós nos dizeis, à Maria, o que o homem mais necessidade tem talvez de saber e que tanto lhe Custa a crer: que Deus é Pai e que ninguém é tão Pai como Ele e que Jesus tem por nós ternuras de Mãe!"

(...)

Hoje Maria Santíssima continua, a uníssono com Jesus, o Seu oficio de Medianeira, intercedendo sem cessar por nós junto de Deus.

(...)

Como Medianeira universal, Maria é distribuidora de todas as graças, por isso, Sua Santidade implora sem hesitação toda essa variedade de graças enumeradas na Consagração: "misericórdia e paz e as graças que podem num momento converter os humanos corações, as graças que preparam e conciliam a paz".

(...)

A Consagração pressupõe a Mediação universal de Maria. Mas há mais: o Papa claramente chama Medianeira a Nossa Senhora, na Mensagem de Outubro do 1942, a Portugal, nas palavras que precederam a Consagração: "Com todo o afecto de Nossa alma — diz — Nos unimos convosco para louvar e engrandecer ao Senhor, dador de todos os bens; para bendizer e dar graças Aquela por cujas mãos a magnificência Divina nos comunica torrentes de graças".

E mais expressamente se é possível: "hoje só nos resta a confiança em Deus e como Medianeira perante o trono divino, naquela que um Nosso Predecessor, no primeiro conflito mundial, mandou invocar como Rainha da Paz".

Além disso, no precioso documento encontram-se repetidas expressões com que se designam vários aspectos de Mediação de Nossa Senhora: "Rainha do Santíssimo Rosário: Auxílio dos Cristãos; Refúgio do género humano; Vencedora de todas as grandes batalhas de Deus; Mãe de Misericórdia; Rainha da Paz; Mãe nossa; Rainha do mundo".

(...)

Por isso a Jacinta nos ensina "que Deus nos concede todas as graças por meio do Coração Imaculado de Maria". E acrescenta também: "Que o Coração de Jesus quer que a Seu lado se venere o Coração Imaculado de Maria".

(...)

Em conclusão e resumo: o exercício da Mediação é essencialmente um exercício de amor e por isso, uma função essencialmente também do Coração de Maria.

Ler texto completo.